A alma humana pode ser o território mais difícil de entender. Somos feitos de sentimentos que raramente se mostram em seu estado puro. Amamos e ficamos ressentidos, admiramos e competimos, desejamos o bem e, em algum lugar escondido, sentimos desconforto diante da felicidade dos outros. Há contradições que não confessamos nem para nós mesmos. A civilização ensinou o homem a controlar seus gestos, mas não necessariamente a entender o que se move silenciosamente dentro dele.
Entre esses sentimentos ocultos está a inveja. Ela tem uma característica particular: dificilmente aceita seu próprio nome. Quem sente raiva pode admitir que está com raiva; quem sofre reconhece a própria tristeza. O invejoso, no entanto, quase sempre precisa criar uma justificativa moral para o que sente. O sucesso do outro torna-se “injusto”; seu talento passa a ser “superestimado”; sua conquista se deve à “sorte”. A inveja precisa minimizar aquilo que não consegue alcançar.
Talvez por isso seja importante desenvolver a capacidade de interpretar a alma humana. Não apenas a dos outros, mas principalmente a nossa. Conhecer-se, como a antiga máxima de Delfos sugere e foi incorporada à tradição socrática, significa descer às partes menos confortáveis da consciência. É relativamente fácil reconhecer nossas virtudes; difícil é aceitar sentimentos que contradizem a imagem que temos de nós mesmos.
A inveja surge justamente da comparação. Não desejamos apenas ter algo; incomoda-nos que outra pessoa o possua. Aristóteles já notava nela uma dor provocada pela prosperidade de alguém próximo ou semelhante. O problema não está necessariamente no objeto desejado, mas na imagem que o outro representa.
Schopenhauer via a inveja como uma manifestação profundamente humana, mas considerava ainda mais sombrio o prazer diante da desgraça alheia. A inveja sofre porque o outro tem; a malícia se alegra porque o outro perdeu. Entre essas duas há uma degradação da consciência: primeiro, desejamos o que alguém tem; depois, queremos que a pessoa não tenha mais.
As redes sociais talvez tenham criado a maior máquina de comparação da história. Todos os dias, somos expostos a viagens, conquistas, corpos, carreiras, relacionamentos e alegrias alheias. Contudo, comparamos nossos bastidores à vitrine dos outros. Dessa comparação impossível podem surgir frustração, ressentimento e inveja.
No entanto, existe uma alternativa. Entre invejar alguém e ser indiferente, há um sentimento extremamente rico: a admiração. A inveja observa uma qualidade alheia e deseja diminuí-la; a admiração contempla a mesma qualidade e quer aprender com ela. Ambas começam com o reconhecimento de alguma grandeza. O caminho ético escolhido após esse reconhecimento é o que as separa.
A mesma grandeza que provoca ressentimento (Nietzsche) pode gerar admiração. O que difere está no que fazemos com aquilo que reconhecemos no outro. A inveja diz: “Eu gostaria que você não tivesse”. A admiração responde: “O que existe em você me mostra algo que também posso buscar”.
Por isso, trocar a inveja pela admiração não é apenas um conselho moral. É uma forma de inteligência. Admirar alguém significa transformar a excelência do outro em uma oportunidade de crescimento pessoal. O talento do outro deixa de ser uma ameaça e se torna uma referência. Nenhuma luz precisa apagar outra para brilhar.
É por aí…
Gonçalo Antunes de Barros Neto (Saíto) ocupa a Cadeira 7 da Academia Mato-Grossense de Letras e é membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso – IHGMT

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