Os impostos arrecadados com as Bets no Brasil não compensam os custos que o país tem com as apostas, tais como a redução do consumo, endividamento bancário, envolvimento de crianças e jovens com os jogos, crises familiares e doenças. Os recursos que seriam direcionados para a compra de bens, alimentação, lazer, saem das mãos dos brasileiros para a Bets digitais, sobretudo das famílias mais carentes.
Em abril de 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra determinou o fechamento dos cassinos no Brasil. Em 2018, 72 anos depois, o então presidente Michel Temer publicou uma medida provisória 847/2018 autorizando o funcionamento dos jogos de azar no universo digital. Ainda em 2018, o decreto virou a Lei 13.756/2018, determinando que a regulamentação dos jogos deveria ser feita em até quatro anos.
De 2019 a 2022, período que governou o Brasil, Jair Bolsonaro não se interessou pelo assunto, o Congresso também não avançou em suas discussões. Resultado: sem regulamentação e fiscalização precária, as empresas de apostas fizeram o que quiseram: contrataram influencers digitais, jogadores de futebol e artistas para promover as apostas, aliciaram jogadores para manipular ações em campo e garantir mais rentabilidade para as empresas.
Antes de apresentar o projeto no Plenário do Senado Federal, Carlos Fávaro, ciente de que o jogo é um vício em que a maioria perde e uma minoria ganha, percorreu Mato Grosso conversando com famílias para saber exatamente a dimensão do problema causado pelas bets, legalizadas e ilegais. Ouviu mãe cujo filho perdeu o salário em apostas, famílias com dívidas altíssimas, endividadas nos cartões de crédito, nos bancos, lares desfeitos por conta de apostas dos maridos, jovens doentes, deprimidos e desempregados.
A ludopatia é um tipo de transtorno mental, reconhecido pela OMS – Organização Mundial de Saúde, como uma compulsão por apostas em jogos de azar, algo incontrolável, como os vícios em cigarro e bebida, por exemplo. Os transtornos causados pelas apostas e prejuízos constantes são depressão, ansiedade, além de isolamento social e risco de suicídio.
Por conta do vício, além do endividamento das famílias, problemas de saúde, principalmente mentais, e lares desfeitos, o volume das apostas e o prejuízo causado ao país, o projeto defendido por Carlos Fávaro exige o envolvimento responsável do Congresso Nacional.
Para o senador Carlos Fávaro, a legalização deste tipo de jogo em 2018 não mediu as consequências. É certo que Michel Temer se arrependeu, conforme entrevista ao UOL: “Eu me arrependo daquele meu ato”, declarou o ex-presidente. De pouco adiantou o arrependimento, o “Cavalo de Troia” já estava nas telas dos celulares dos brasileiros, com a escotilha aberta pela omissão das autoridades brasileiras.
Guilherme Klein, economista da Universidade Federal do Rio de Janeiro e integrante do Centro de Pesquisa em Microeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo, em entrevista à BBC Brasil identificou as disparidades no Produto Interno Bruto do País (PIB) causados pelas Bets.
Somente em 2025, os Bets retiraram da atividade econômica “entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões”, o equivalente a “0,9% a 1,1% do PIB daquele ano”. Segundo o estudo de Klein, esse valor corresponde a cerca de 40% a 50% do total do crescimento da economia em 2025, que foi de 2,3%. O mais surpreendente é que este valor movimentado pelas Bets equivale, segundo o pesquisador, a cinco vezes mais o impacto causado pelo tarifaço de Donald Trump.
Antes de a Lei da Bets, como ficou conhecida, ser sancionada pelo presidente Lula em 2024, percorreu por diversas vezes as idas e vindas na Câmara e no Senado em 2023. Conforme explicou Fávaro em seu pronunciamento no Senado, o governo Lula “bloqueou mais de 25 mil sites ilegais de apostas, encerrou centenas de contas bancárias vinculadas a operadores clandestinos, proibiu beneficiários do Bolsa Família e do BPC de utilizarem recursos assistenciais em plataformas de apostas e restringiu a publicidade de bets em horários e formatos voltados ao público jovem”.























