Audrey Tang nasceu em Taipei em abril de 1981, filha de jornalistas que lutavam contra a
ditadura do Kuomintang. Aos oito anos já programava em Logo. Identificada com
superdotação e QI avaliado em 180, achava a escola lenta e abandonou os estudos aos 14.
Aos 16 já era empresária de software. Aos 19 estava no Vale do Silício trabalhando em
linguagens centrais do código livre como Perl e Haskell e fundou a empresa Pugs. Fez
fortuna antes dos 30. Aos 24 fez sua transição de gênero e adotou o nome Audrey e o
pronome ela, mantendo documentos antigos por convicção de que o Estado não deveria
certificar identidades. Se tornaria a primeira pessoa abertamente trans a ocupar um
ministério no mundo.
O retorno a Taiwan não foi por carreira política. Em março de 2014, centenas de
estudantes ocuparam o Parlamento por 23 dias no Movimento dos Girassóis para impedir
a aprovação sem debate de um acordo comercial com a China. Tang entrou no prédio
ocupado não como manifestante, mas como infraestrutura. Levou câmeras, servidores e
montou transmissão ao vivo com transcrição colaborativa. Dali nasceu o coletivo g0v,
pronunciado gov zero, trocadilho com gov ponto gov. A lógica era subversiva: se o governo
publica um orçamento como PDF escaneado impossível de pesquisar, o g0v republica
como planilha aberta, pesquisável e comentável.
Se publica uma lei em juridiquês, o g0v
publica com anotações lado a lado. Não era oposição, era bifurcação, termo do software
livre quando você copia um código e faz uma versão melhor. A ação pressionou a
aprovação da Lei de Supervisão de Acordos com Pequim e chamou a atenção da presidente
Tsai Ing-wen, que em 2016 convidou Tang para ser ministra sem pasta para assuntos
digitais. Em 2022 assumiu como primeira titular do Ministério de Assuntos Digitais, cargo
que ocupou até maio de 2024.
Foi no governo que sua autodefinição de anarquista conservadora ganhou corpo. Parece
contradição, mas é coerente. Anarquista porque acredita que o Estado não deve ter
monopólio da ação pública e que o poder deve ser distribuído em redes. Conservadora
porque não quer destruir instituições, quer conservar valores como democracia, liberdade
e bem comum, atualizando seu sistema operacional. Ela repete que não trabalha para o
governo nem para o povo, mas como ponte, como interface entre burocracia e sociedade
civil. Para provar a tese, impôs uma regra que chocou ministérios: toda reunião com
lobistas, empresários ou jornalistas seria avisada como gravada, transcrita e publicada em
até duas semanas num portal público. Quando você sabe que sua fala será pública, dizia,
você faz lobby para o interesse público, não para o privado.
Sua tese se sustenta em três pilares em escala nacional. Primeiro, transparência radical por
padrão e sigilo apenas por exceção justificada. Segundo, voluntariedade radical: ninguém
é obrigado a participar de nenhuma plataforma do governo, mas todos podem participar.
Terceiro, pluralidade em vez de maioria simples. Para Tang, a democracia representativa
tradicional é pobre em banda larga. Votar para presidente a cada quatro anos é como
enviar dois bits de informação para expressar milhares de prioridades. As redes sociais
pioraram isso ao premiar polarização.
A alternativa foi o vTaiwan, plataforma de 2015 usando o software livre Polis. Diferente do
X ou Facebook, o Polis não ordena por curtidas, mas mapeia grupos de opinião e revela
consensos inesperados entre quem se acha oposto.
Um caso foi a regulação do Uber: em
vez de decisão de gabinete, o tema ficou quatro meses no vTaiwan com taxistas, motoristas
de app e passageiros construindo texto comum enviado ao Parlamento quase sem
alterações. Outra ferramenta foi o Join, onde qualquer petição com cinco mil assinaturas
recebe resposta obrigatória do governo em até dois meses. Durante a covid-19, quando
Taiwan controlou o vírus sem lockdown obrigatório, Tang aplicou a mesma filosofia contra
fake news. Em vez de censurar boatos, lançava em até duas horas memes humorísticos e
informativos feitos por cidadãos, a estratégia humor sobre rumor, que viralizava mais
rápido que a mentira.
Ao deixar o cargo em 2024, lançou com o economista Glen Weyl, da Microsoft, o livro
Plurality: Tecnologia Colaborativa e o Futuro da Democracia. A tese central é que a
inteligência artificial não precisa ser centralizadora e extrativista. Pode ser desenhada
como infraestrutura pública, pró-social, de código aberto, assistiva à democracia. É o que
chama de tecnologia que fortalece a colaboração, em vez de extrair atenção. É a anarquia
que conserva: conservar a democracia, mas trocando seu sistema operacional.
José Antônio Borges Pereira é Procurador de Justiça do Estado de Mato Grosso e titular da
Procuradoria de Justiça Especializada na Defesa da Cidadania, Consumidor, Direitos
Humanos, Minorias, Segurança Alimentar e Estado Laico.























