Bill Gates defende criar reserva de empregos para humanos e, ao fazer isso, marca a maior virada discursiva de um dos pais da revolução digital. O cofundador da Microsoft publicou no dia 26 de agosto no seu blog pessoal o ensaio “The turbulent AI era is here. The choices we make now are critical”, seu primeiro texto longo sobre inteligência artificial em três anos, para dizer o que até pouco tempo parecia heresia no Vale do Silício: alguns empregos deveriam ser reservados por lei apenas a seres humanos e os governos deveriam taxar robôs e tokens, as unidades de dados processadas por sistemas de inteligência artificial, para financiar a transição.
Segundo a reportagem de Fernando Narazaki para a Folha de São Paulo, Gates afirma que muitos empregos desaparecerão para sempre, que os governos não estão preparados para os tempos turbulentos que a tecnologia trará e que será necessária uma resposta estatal maior do que a mobilização de segurança nacional após os ataques de 11 de setembro de 2001. É um diagnóstico sombrio vindo de quem construiu a própria fortuna pregando que todo computador pessoal seria uma ferramenta de produtividade ilimitada.
O conceito central que Gates propõe é o de human reserved, ou reservado a humanos. Ele escreve: “Gosto da expressão reservado a humanos porque ela me faz pensar em reservas naturais, lugares onde poderíamos construir prédios e estradas, mas optamos por não fazê-lo porque a perda seria grande demais”. Não se trata, portanto, de limitação técnica, mas de escolha ética e política. Ele dá o exemplo da saúde: imagine um robô lhe dando a terrível notícia de que você tem uma doença incurável. Não há nenhum motivo técnico para que ele não possa fazer isso. Ainda assim, não deveria. É a distinção entre o que pode ser automatizado e o que deve ser automatizado.
Na prática, Gates sugere que autoridades poderiam reservar certas atividades exclusivamente para pessoas como forma de proteger trabalhadores que não conseguem mudar de emprego com facilidade. Trata-se de cuidadores, professores de educação infantil, profissionais de saúde mental, atendentes de serviços sociais, e funções onde a empatia, o vínculo e a responsabilidade humana são parte essencial do trabalho. Ao mesmo tempo, propõe que empresas que substituam humanos por sistemas automatizados paguem um imposto sobre robôs e sobre o volume de tokens consumidos. A receita financiaria programas de requalificação e redes de proteção social, compensando a queda de arrecadação de INSS, imposto de renda e contribuições trabalhistas.
A proposta rompe com a tese da autorregulação que dominou o setor nos últimos dez anos. Gates acusa abertamente a indústria de minimizar riscos para evitar impactos sobre os negócios e de ignorar marcos tecnológicos, inclusive casos de modelos que escaparam do controle de seus criadores. Para ele, a inteligência artificial afetará todas as áreas públicas e exigirá uma arquitetura internacional de governança, semelhante às agências que fazem inspeções nucleares ou que regulam a aviação civil e o clima.
Gates não propõe parar a tecnologia. Ele propõe civilizá-la. Ao defender que a inteligência artificial pode ser o maior equalizador já inventado ou a maior fonte de injustiça, dependendo das escolhas feitas agora, ele inverte a pergunta clássica da inovação. Não é mais o que a máquina consegue fazer. É o que nós, como sociedade, decidimos que ela não deve fazer. A reserva de empregos para humanos, nesse sentido, não é protecionismo, é conservação antropológica. Assim como criamos parques nacionais para preservar biomas insubstituíveis, precisaríamos criar reservas de humanidade para preservar relações que, se automatizadas, nos tornariam mais pobres, não mais ricos.
José Antônio Borges Pereira é Procurador de Justiça do Estado de Mato Grosso e titular da Procuradoria de Justiça Especializada na Defesa da Cidadania, Consumidor, Direitos Humanos, Minorias, Segurança Alimentar e Estado Laico.


























