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ARTIGO

Quando despertaremos?

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Temos sido mais generosos com os mortos do que com os vivos. Diante da ausência, multiplicamos elogios, resgatamos fotografias, enumeramos virtudes e encontramos palavras que, em vida, tantas vezes economizamos. É como se precisássemos perder alguém para finalmente enxergá-lo. A pergunta incômoda é: por que o reconhecimento quase sempre chega atrasado?

A história está cheia de exemplos. Antônio Vivaldi morreu longe do prestígio que sua música alcançaria. Johann Sebastian Bach foi reconhecido em seu tempo como organista e mestre, mas a dimensão de sua obra ganharia maior projeção posteriormente. Mozart também enfrentou dificuldades, apesar de uma genialidade que hoje ninguém questiona.

Os séculos passaram. Nós mudamos tanto assim?

Vivemos na sociedade da exposição. Nunca mostramos tanto, opinamos tanto e tivemos tantas ferramentas para dizer o que sentimos. As redes sociais transformaram reconhecimento em curtidas e seguidores. A tecnologia encurtou distâncias e a inteligência artificial colocou respostas em nossas mãos. Ainda assim, continuamos com dificuldade para enxergar quem está ao lado.

Queremos ser reconhecidos. Mas sabemos reconhecer?

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O psicanalista e filósofo social Erich Fromm, em A Arte de Amar, tratou o amor não como algo que simplesmente acontece, mas como uma arte que exige aprendizado e prática. Para ele, amar envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento. Uma reflexão atual porque enxergar verdadeiramente o outro também exige disposição.

Talvez esteja justamente aí o problema.

Na pressa diária, naturalizamos presenças. A mãe que cuida parece apenas cumprir sua obrigação. O pai que sustenta a casa precisa continuar forte. O profissional eficiente raramente é elogiado, mas rapidamente lembrado quando erra. O amigo que sempre escuta quase nunca é perguntado se também precisa falar.

Acostumamo-nos tanto com algumas pessoas que deixamos de perceber o tamanho delas em nossas vidas.

Quando a ausência chega, tudo muda. O telefonema antes ignorado faz falta. O conselho que incomodava ganha sentido. A fotografia esquecida vira lembrança preciosa. E surgem homenagens carregadas de palavras que poderiam ter sido pronunciadas antes.

Para os cristãos, Jesus de Nazaré talvez seja o exemplo mais contundente dessa contradição. Pregou amor, misericórdia, justiça e paz, acolheu os excluídos e enfrentou os interesses de seu tempo. Recebeu a cruz. Para a fé cristã, porém, a sexta-feira da dor não encerrou a história: veio o domingo da ressurreição.

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Não precisamos esperar nossas próprias perdas para compreender essa mensagem.

Reconhecer alguém em vida não exige discursos ou grandes homenagens. Às vezes, cabe em um telefonema, um abraço, um agradecimento ou numa frase simples: “Você é importante para mim”.

Fromm nos ajuda a perceber que amar também pressupõe ação — e reconhecer o outro talvez seja uma de suas manifestações mais bonitas. Precisamos aprender a elogiar antes da despedida, agradecer antes da saudade e valorizar antes que a ausência nos ensine aquilo que a presença tentou mostrar todos os dias.

Olhe para quem caminha ao seu lado. Talvez existam pessoas esperando não por aplausos, mas apenas pela certeza de que foram vistas.

Afinal, quantas ausências ainda serão necessárias para valorizarmos as presenças?

Quando despertaremos?

Soraya Medeiros é jornalista

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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