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BEM-ESTAR ANIMAL

Santuário em MT permite que elefantes recuperem autonomia perdida em cativeiro, defende ativista

Em entrevista ao PNB Online, Carol Zerbato fala sobre a chegada de Sandro a Chapada dos Guimarães, responde a críticas ao modelo de santuário e apresenta as reflexões do livro ‘Por que prendemos os animais?’, lançado recentemente.

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Carol Zerbato durante visita ao Santuário de Elefantes Brasil, em Chapada dos Guimarães. Na imagem, ela aparece à distância de Maia e Guida, primeiras residentes do espaço; segundo a jornalista, a aproximação é limitada por segurança e respeito aos animais.

A chegada do elefante Sandro ao Santuário de Elefantes Brasil, em Chapada dos Guimarães, após mais de quatro décadas no Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, em Sorocaba (SP), ganhou grande repercussão nas redes sociais na última semana.

Em entrevista ao PNB Online, a jornalista e escritora Carol Zerbato, madrinha do Santuário, afirmou que a principal diferença entre um zoológico e um santuário não está apenas no tamanho da área disponível, mas na autonomia dada aos animais. “Muitas pessoas acham que o problema do zoológico é só o espaço delimitado. Na verdade, o maior problema é que os animais não podem fazer o que querem com seu próprio tempo”, afirmou.

Segundo Carol, o Santuário de Elefantes Brasil não é aberto à visitação e mantém áreas de suporte e atendimento veterinário, mas os animais podem se deslocar pelo território e decidir se querem ou não permanecer próximos à estrutura mantida pelos cuidadores. “No santuário, eles recuperam a autonomia. Eles podem fazer o que quiserem com o próprio tempo”, disse.

Voltar a ser elefante

Elefante Sandro enquanto vivia no Zoológico de Sorocaba (Foto: SEB)

Sandro tem aproximadamente 54 anos e passou parte da vida em circo antes de ser levado para o zoológico de Sorocaba, onde permaneceu por mais de 40 anos. A transferência para Mato Grosso ocorreu após uma disputa judicial e foi alvo de manifestações contrárias em Sorocaba. Para Carol, a mudança para o santuário representa uma alteração completa na rotina do animal.

“Muda tudo. Ele volta a ser um elefante. Ele pode voltar a ser um elefante, fazer coisas de elefante”, afirmou.

Ela citou como exemplo o comportamento apresentado por Sandro logo após deixar a caixa utilizada no transporte até o Santuário. “Ele já jogou terra na cabeça, tomou o seu banho de terra e começou a explorar o lugar”, relatou.

Segundo a ativista e escritora, animais que passaram décadas sob cuidados humanos carregam experiências distintas e podem reagir de formas diferentes à mudança. “Cada animal tem suas individualidades, suas peculiaridades e também seus traumas, cicatrizes de cativeiro”, disse.

Críticas e educação

A vinda de Sandro para Mato Grosso também provocou críticas nas redes sociais e mobilização de moradores de Sorocaba contrários à transferência. Carol afirmou que evita se manifestar durante processos desse tipo para não interferir nas disputas administrativas ou judiciais envolvendo os animais. E que procura evitar uma postura de confronto com pessoas que discordam da atuação do Santuário.

“Eu procuro dialogar, que é uma coisa que está em extinção”, disse. À reportagem, ela contou que, durante uma visita a Sorocaba, perguntou a uma moradora o que ela pensava sobre a saída de Sandro. Segundo Carol, a resposta foi de que havia tristeza pela partida do animal, mas também a percepção de que a mudança poderia beneficiá-lo.

Questionada sobre o que considera necessário para reduzir a manutenção de animais selvagens em condições inadequadas de cativeiro no Brasil, Carol afirmou que mudanças legais e fiscalização têm importância, mas defendeu que a transformação depende principalmente da educação e da mudança no comportamento do público.

“A única coisa que pode acabar com o cativeiro de animais selvagens é a educação, a conscientização. É uma mudança sociocultural”, afirmou.

Para ela, zoológicos, aquários e outras atrações que utilizam animais continuam existindo porque há demanda do público. “Só se as pessoas pararem de consumir, de financiar esse tipo de sofrimento, é que a gente consegue acabar com a exploração”, declarou.

Ursos-polares são mantidos em cativeiro na cidade de São Paulo (Foto: Reprodução / Tiktok)

Carol também criticou a ideia de que a exposição de animais fora de seus habitats naturais seja necessariamente uma ferramenta de educação ambiental. Ela citou como exemplo passeios escolares a aquários e defendeu que instituições de ensino apresentem aos estudantes também as condições em que aqueles animais chegaram e permanecem nesses espaços.

“Como mãe, eu quero saber qual é a proposta pedagógica de levar o meu filho para ver um urso polar dentro de um país tropical como o nosso. […] Instituições de ensino têm que fomentar pensamento crítico”, afirmou.

“Por que prendemos os animais”

Essa discussão também está no livro “Por que prendemos os animais”, disponível para compra neste link, no qual Carol reúne histórias de animais mantidos em zoológicos, circos, aquários e outras estruturas de entretenimento e questiona a relação estabelecida pelos humanos com outras espécies.

Imagem: Divulgação

A autora afirma que sua intenção não é convencer o leitor a adotar uma determinada posição, mas fazer com que ele questione práticas que muitas vezes são tratadas como naturais. “O que eu pretendo é que a pessoa faça uma reflexão. O que ela está ensinando para os filhos dela? Será que é legal mesmo levar seu filho para ver um elefante naquelas condições?”, questionou.

Segundo Carol, o livro também aborda os interesses econômicos por trás da exploração de animais e episódios conhecidos internacionalmente, como o processo de reabilitação da orca Keiko, que interpretou Willy no cinema.

Para a escritora, a mudança começa em decisões cotidianas, desde questionar excursões escolares até buscar informações antes de visitar atrações turísticas envolvendo animais. “Quando você for nadar com o golfinho, procure saber de onde ele veio. Procure saber como ele chegou até ali. É mudar ali um pouquinho. Não aceitar passivamente”.

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