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Brasil, ano zero

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Em 1948, o diretor de cinema italiano Roberto Rossellini filmou, na Berlim destruída, o filme “Alemanha, Ano Zero” (Germania anno zero). Filmado na estética neorrealista, contando com imagens fortes e pessoas que viviam na cidade à época, apresenta-nos como se encontrava a cidade e sua gente. Isso ocorreu antes do “Plano Marshall”. A mensagem direta é que a guerra, chegada ao seu fim, deixa um rastro de destruição e pobreza. E, conforme ficou demonstrado depois, a reconstrução é dolorosa e demora muito tempo.

 

Ressalte-se que não está no escopo analisar os gravíssimos erros cometidos por atos e omissões pelo Governo Federal. Inclusive em vasta literatura econômica, baseada em estudos feitos sobre o período da gripe espanhola nos Estados Unidos, demonstraram que o “fechamento” garantiu a recuperação mais rápida da economia. 

 

Pois bem! O que observamos com a pandemia causada pelo novo coronavírus (covid-19) é, infelizmente, que seus efeitos sobre a economia e muitos aspectos da sociedade serão semelhantes a uma guerra. O capital físico pode até não ter sido destruído, porém as relações e condições econômicas romperam-se brutalmente.

 

Vejamos como está o cenário da economia brasileira atualmente. E isso dará o tamanho do problema que teremos pela frente e durará anos. 

 

As contas públicas fecharam o ano de 2020 com saldo negativo recorde devido à queda na atividade econômica, e consequentemente na arrecadação, e às despesas extraordinárias necessárias para o enfrentamento da pandemia do novo coronavírus (covid-19). O que permanecerá enquanto a pandemia estiver fora de controle.

 

Desde julho do ano passado, já afirmava que a única política consistente de longo prazo da economia era a vacinação! Mas o governo contra séculos de ciência apostou no caos, talvez até por interesse político inconfessável. 

 

No ano de 2020, a dívida pública federal do Brasil fechou em R$ 5,01 trilhões. Trata-se de aumento de 17,9% em relação a 2019, tendo os gastos para enfrentar a pandemia da Covid-19 como principal motivo para a alta. Nota-se ainda, que em 2021 o valor pode ficar próximo dos R$ 6 trilhões.

 

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No início do ano de 2020, a economia já mostrava sinais de problemas com restrição ao crescimento, sendo que embora o relatório FOCUS do Banco Central (pesquisa semanal do Banco Central que faz projeções futuras para os principais indicadores econômicos) estimasse um crescimento do PIB de 2,3% em 2020, com o número oficial de 2019 registrando um crescimento de cerca de 1%, mesmo antes da pandemia já se observava a fragilidade da economia brasileira, bem como sua baixa capacidade de expansão!

 

Em 2020, o Produto Interno Bruto da Economia registrou queda de 4,1%. O único setor que registrou crescimento no ano passado foi a agropecuária (2%), enquanto a indústria perdeu 3,5% e os serviços caíram 4,5%, informou o IBGE. Pelo lado da demanda, os investimentos caíram 0,8% e o consumo das famílias 5,5%, apesar do colapso de 13% registrado entre janeiro e junho. 

 

A decisão do Copom de aumentar os juros na última reunião do COPOM (Comitê de Política Monetária) simplesmente ocorreu pelo fato de o governo estar perdendo o controle sobre variáveis fundamentais para a economia brasileira, quais sejam, o nível de preços e o câmbio. Tal decisão tardia dentro do contexto que se apresentava desde o segundo semestre do ano passado, ratifica o que os agentes econômicos já percebiam. E, além do mais, resultará em um aumento de despesas com encargos da dívida.

 

O erro do BC no último ano em não perceber a real natureza e consequências da inflação redundará em aumento acelerado dos juros este ano. A inflação deverá girar em torno de 6% e não há mais espaço para juros reais negativo. A inflação ficará desancorada das variáveis macroeconômicas e o cenário futuro é semelhante aos de 2014 e 2015. Aumentará a aversão ao risco, o que gerará instabilidade. Isso em um total descontrole da gestão fiscal. Não é impossível que caminhemos para a “dominância fiscal”.

 

A lenta vacinação, devido às escolhas erradas feitas pelo governo federal no ano passado, junto com o sombrio sinal fiscal nos apontem para momentos complicadíssimos da economia brasileira.

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Fato é que quando a pandemia terminar, o custo econômico expresso a partir de déficits fiscais gigantescos, dívida pública imensa, juros altos, preços com tendência de alta não há como ter a não ser uma única certeza: todos sairemos mais pobres. E não se pode impor tudo isso à pandemia, pois há muitos erros grosseiros e incompetência econômica.

 

Os preços de grande quantidade de bens e serviços (muitos administrados pelo governo) alinhando para cima já estão fazendo o “ajuste” com a redução da renda real das famílias de forma nunca vista desde os anos 1980. A redução dessa renda real ainda em doses administráveis são a ponta do iceberg do que virá. Para sair da pandemia e retomar o funcionamento da economia, obedecendo a teoria e a boa prática econômica, será necessário redução dos gastos públicos de forma consistente ou aumento de impostos. O primeiro elemento, esbarrará nas corporações e interesses privados. O segundo no já esgotado modelo de retirar cada vez mais recursos do setor privado. Com o agravante do governo mais desorganizado fiscalmente dos últimos 20 anos, que nem mesmo um orçamento consegue fazer corretamente. Paralelamente, será necessário atrair o capital externo para que se garanta o mínimo de ampliação dos investimentos para uma economia destruída.

 

Assim, como sabemos que só existem essas duas formas de superar o total desequilíbrio fiscal recorrente: redução drástica dos gastos e aumento dos impostos. Opa, existe outra de fácil execução: monetização da dívida e impressão de moeda (gerando inflação). Com isto, poderemos caminhar rapidamente para um cenário em que a volta à estagflação dos anos 1980 talvez pareça até leve. Lênin dizia que a “melhor forma de destruir um governo é corromper o valor da moeda”. E, como vivemos um governo de destruição do país, isso já está ocorrendo.  Bem-vindos ao país do desgoverno. Bem-vindos ao Brasil, ano zero!

 

* André Eduardo da Silva Fernandes é Mestre em Economia pela UnB (Universidade de Brasília) 

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