Pesquisa realizada pelo DataFolha revela que 62 % dos jovens de 16 a 24 anos querem sair do país, o que dá aproximadamente 19 milhões de pessoas. Se acrescentarmos que aposentados estão se mudando para outros países, que ricos estão se mudando para o exterior, que 43 % da população adulta gostaria de mudar de país, o que dá por volta de 70 milhões de pessoas, veremos que se fosse possível haveria uma emigração em massa de brasileiros pelo mundo, uma verdadeira diáspora de brasileiros, muito mais que as guerras no mundo promovem.
É que isso ocorre porque se vive uma guerra civil não declarada em solo brasileiro, onde todos estão contra todos, e cada um só pensa em salvar a si próprio, nem que para isso tenha que prejudicar os demais, ou solicitar privilégios sobre os outros.
São números preocupantes, a quantidade de pessoas descontentes, desesperançadas, frustradas e insatisfeitas. Está ocorrendo uma fuga de cérebros, um êxodo de valores humanos, pois a maioria que está disposta a mudar do país são as mais escolarizadas, das classes A e B.
É que mesmo as pessoas escolarizadas não se sentem parte da solução do país, nem acreditam que haja solução, e sem esperança e indignadas partem para salvar a própria pele.
Uma atitude racional de busca de uma melhora para si, e sem avistar melhoras nacionais, na política e na economia; num mundo onde cada vez é mais fácil mudar de país, transitar pelo mundo, escolhem mudar para civilizações mais ordenadas, onde as leis tem valor e o trabalho é mais bem remunerado, ou o talento reconhecido, ou o mérito identificado.
Uma boa parte de brasileiros prefere mudar de país a se dedicar a melhorar o Brasil. Não acreditam nos brasileiros, nem que sejam capazes de fazer um país decente.
E de tempos em tempos ondas de indignação atinge o solo pátrio, movendo furiosamente as massas e afastando ainda mais outras grandes massas assustadas, não vendo solução numa luta inglória onde todos lutam contra todos, onde leis e direitos são para poucos, onde a virtude vale pouco
e as relações pessoais decidem as vitórias e as derrotas, nunca o mérito.
Naturalmente, se essas 70 milhões de pessoas resolvessem fazer do país o país que desejam mudar, conseguiriam fazer daqui o que se vê por aí. Mas, não se acredita nem nos nossos pares, os demais cidadãos, nem acreditam em si mesmos, que possam alterar uma ordem histórica que parece ser imutável, de uma nação destinada a ser medíocre e violenta.
Na época da ditadura militar, logo após a conquista da copa, gritavam os militares: “BRASIL: AME-O OU DEIXE-O”. O bom humor da época, às escondidas, escarnecia: “O último que sair apague as luzes do aeroporto!”.
Bom, me parece que na atualidade, o amor diminuiu, e não estamos mais presos ao nosso lugar natural como em outras épocas, quando o trânsito de pessoas era mais limitado e até mesmo estranho. O fato é que muitos já não amam o país, se sentem por ele traído, sentem uma profunda ingratidão por não ser reconhecido, e não tem esperanças que possa haver mudanças.
As pessoas não se sentem parte de um sistema político ou de uma nação, não se sentem cidadãos com direito ou com deveres, e preferem buscar a própria salvação a buscar uma salvação comum. Não se quer o esforço para construir uma grande nação, quando há tantas grandes nações já feitas, onde se pode ser feliz sem tanto sofrimento ou riscos, de forma mais confiável e estável.
É de se notar, nesse tempo de copa, como há inúmeros jogadores de futebol brasileiros naturalizados em outras nações, competindo por outras bandeiras. Muitos comentaristas esportivos reprovam tal procedimento, como se significasse um certo tipo de traição à pátria.
O que eles não percebem é que a pátria é para poucos e os que podem procuram lugares mais honestos e justos para competir por uma vida feliz. Como privilegiados não percebem que esse país só é bom para privilegiados, que são poucos, e que a grande maioria sem grandes chances de vitória num país de perdedores, com poucos vitoriosos, e só contando consigo próprio, tem todo direito de lutar por um lugar ao sol, nem que seja em outro quadrante.
Não há sinal mais luminoso do que este para se perceber que a nação está profundamente adoentada. Creio que é chegado o momento de começarmos a aplicarmos no brasileiro, cativá-lo, conquistá-lo, pois do contrário continuaremos a ver nossos melhores quadros serem cooptados pelo resto do mundo e ficarmos apenas com aqueles incapazes de saírem do país, seja por falta de méritos, seja por falta de coragem.
Corremos o risco de vermos nosso país só com idosos, sem jovens, definhando, até que não tenha nem quem apague as luzes do aeroporto.
ROBERTO DE BARROS FREIRE é professor do Departamento de Filosofia/UFMT.
























