“Uma parte de mim é todo mundo. Outra parte é ninguém, fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão. Outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera. Outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta. Outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente. Outra parte se sabe de repente”.
Este poema de Ferreira Gullar nos ajuda a refletir sobre as diversas contradições apresentadas pela pandemia como a vulnerabilidade extrema e a fragilidade multifacetada humana tais como: medo, preconceito, incerteza, insegurança, morte, isolamento, distanciamento. Além desses impactos trouxe também diminuição das relações sociais afetivas e coletivas, alteração no modo de viver, alteração no funcionamento das Instituições, redes de apoio, grupos, famílias, comunidades, fatos esses que afetaram o território de vivências.
Estes impactos escancararam e agregaram novas mazelas acentuando as desigualdades sociais, desemprego, queda de renda, imigração, situação de violência e violação de direitos, desamor e desproteção social marcando com sofrimento a trajetória de vida dos cidadãos.
Neste cenário a questão social traz um debate com elementos fundamentais para análise e estratégias para o enfrentamento com um olhar ampliado para além do que a assistência vinha realizando. Desenho aqui um reforço de um movimento coletivo de coalizão social no sentido de chamamento de toda sociedade civil organizada, acumulando forças num processo de juntar campos de saberes profissionais, construindo pontes para efetiva atuação.
Um trabalho social numa proposta de intersetorialidade com novos contornos metodológicos de articulação com movimentos de outras categorias, convidando para um diálogo fontes inspiradoras tendo como referência o saber técnico e o saber popular.
No saber técnico as universidades, pesquisadores, professores, acadêmicos e conselhos de assistência social.
E no saber popular as forças vivas dos territórios, lideranças comunitárias e grupos sociais organizados, movimentos sociais, ONGs, além de conselhos de direito, organizações dos usuários da política de assistência social, órgãos governamentais afins, estadual e municipal e os segmentos empresariais.
E dessa forma construir uma ampla coalizão social de apoio às redes garantindo proteção social e direitos de cidadania na defesa das múltiplas expressões das questões sociais pós pandemia, respeitando as instâncias de uma gestão compartilhada de forma complementar distinta de respostas ao combate à pobreza e à exclusão social.
Essa linha de proposição desencadeará estratégias para alterar este quadro social, ora apresentado, além da efetivação de uma prática social democrática, participativa, reflexiva na busca de efeitos práticos.
A assistência social deve ir além de uma política, a assistência social é direito do cidadão. É a transformação de cidadãos vulneráveis em ativos produtivos na sociedade. É ajuda de dignidade com autonomia financeira.
Um trabalho intersetorial traria os diferentes componentes necessários para uma visão mais ampla e humana do que deve ser feito. Ferreira Gullar serviu de inspiração para o começo dessa reflexão. Porém, agora é hora de juntarmos as partes e sermos apenas um.
Benedita Arlete Ventura é assistente social. Profª. Me. do Curso de Servic?o Social da Unic, ex-secreta?ria municipal de Assiste?ncia Social e Desenvolvimento Humano da Prefeitura Municipal de Cuiaba?.


























