Tem gente que evita contrair empréstimo, seja de quem for. De pessoa física (conhecida como agiota) ou de pessoa jurídica (tecnicamente chamada de usurária). Nem utilizar cheque especial ou atrasar o pagamento do cartão de crédito. Motivo: os juros são altos e não faz bem à saúde financeira ser incluído na lista dos 75,7 milhões de brasileiros, que não conseguiram pagar suas dívidas no mês de maio. Para quem atrasa o cartão de crédito, chegam a superar 320% ao ano, o equivalente a mais de três vezes o valor da dívida inicial. R$ 300 vira R$ 960,00 em apenas 360 dias (*). No cheque especial, a garfada de 165,79%, embora menor, ainda pesa. Nem os empréstimos normais amenizam: ficam na casa dos 151% por ano. Há outras linhas de crédito com juros mais baixos, como o Pronampe e o consignado, mas o menor patamar, para os brasileiros comuns, é de 18,97% ao ano.
Mas, ao que parece, nem todos os brasileiros se consideram comuns. O pessoal ligado ao agronegócio, por exemplo, reclamou na semana passada tanto do valor liberado (R$ 516 bilhões) para grandes e médios produtores, quanto das taxas de juros cobradas no Plano Safra 2025/26. Fixadas entre 8,5% e 14% ao ano estão bem abaixo das praticadas no mercado. Mesmo assim foram consideradas altas. Devem estar reclamando dos 3% cobrados para financiar arroz, feijão, mandioca, frutas, verduras, ovos e leite sobre os R$ 89 bilhões destinados à Agricultura Familiar.
Pode não ser, mas o discurso equivale ao dos que reclamam dos R$ 119 bilhões do Programa de Proteção Continuada (BPC) estimados para este ano a ser pago a 6,5 milhões de brasileiros e dos menos de R$ 20 bilhões investidos em Bolsa-Família, Auxílio Gás, Primeira Infância, Pé de Meia e Bolsa Atleta, entre outros, garantindo uma sobrevida a cerca mais de 25 milhões de famílias, 8,7 milhões de crianças de zero a seis anos e 678 mil gestantes.
Ainda assim, há quem queira reduzir estes repasses e os investimentos em educação e saúde. Sem contar que o Congresso Nacional (senado e câmara dos deputados juntos) derrubou o decreto de aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). De quebra, o tempo está passando (já estamos no segundo semestre do ano) e a proposta de isentar de Imposto de Renda Retido na Fonte para quem ganha até cinco mil reais está na berlinda. Ninguém toca no assunto.
Enquanto o Terceiro Estado paga a conta, os muito-ricos (apenas eles) nadam de braçada. Sem contar os R$ 516 bilhões, a juros abaixo do mercado para grandes e médios produtores rurais, os benefícios fiscais estimados pelo Governo Federal para este ano são de R$ 543 bilhões (bem superior aos R$ 139 bilhões destinados a famílias pra lá de carentes). E ainda tem o orçamento secreto, o fundão eleitoral e etc. Mesmo assim, insistem em defender que o dinheiro a ser cortado precisa ser o da menor fatia.
Tem alguma coisa errada nesta conta. Ela não equaciona. Muito pelo contrário, escancara a desigualdade.
A conta correta é: R$ 300 vira R$ 1.260 em apenas 360 dias.
Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online
























