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ARTIGO

A régua com que eu meço o outro

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Este é meu primeiro texto escrito em primeira pessoa. Portanto, é natural que as críticas e os julgamentos, muitos deles carregados de pessoalidade, apareçam em maior quantidade se comparados aos outros centenas de textos que já escrevi.

Não sou psicólogo, muito menos filósofo, mas admiro essas duas importantes áreas do conhecimento. Para o psicólogo americano Carl Rogers, defensor da suspensão da crítica, compreender o cotidiano real de alguém exige que o ouvinte se esvazie dos próprios preconceitos. É preciso deixar de avaliar o outro com base exclusivamente nos nossos valores.

Outra ideia defendida pelo psicólogo americano é a empatia profunda, entendida como a capacidade de entrar no mundo interno do outro. Significa perceber a realidade exatamente como aquela pessoa a percebe, sentindo o que ela sente, sem necessariamente se perder nessa dor.

No campo filosófico, a húngara Ágnes Heller, estudiosa da superação da alienação, defende que compreender o homem simples exige respeito à sua rotina. Para ela, a crítica só é válida quando ajuda alguém a transformar a própria vida de maneira consciente, e nunca quando serve para diminuir seu modo de viver.

Sou uma pessoa observadora e, para alguns, taxada de chata. Contudo, tenho profunda facilidade para compreender o que as pessoas simples e, às vezes, ignorantes têm a oferecer. Esse comportamento se aproxima da empatia profunda estudada por Carl Rogers.

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É fácil para mim compreender, por exemplo, que durante uma conversa com uma pessoa de fala rústica ou pouco instruída, muitas palavras por ela proferidas nem sempre possuem o propósito de magoar ou chatear o ouvinte. Quando isso acontece, na maioria das vezes, é porque o ouvinte está cheio de melindres, criado em bolhas ou redomas onde nunca pode ser contrariado.

Do mesmo modo, quando essa mesma pessoa simples e humilde me oferece algo, seja material ou não, tenho a sabedoria de entender que aquilo representa o melhor que ela pode oferecer. Isso já aconteceu com alimentação: em um sítio da zona rural, na casa de parentes que há muito tempo eu não via, fui recebido com uma panelada de buchada (dobradinha), arroz com jiló e quiabo babento.

Para muitos, não seria um prato digno de comerciais. No entanto, quando me lembrei de que aquele banquete havia sido preparado especialmente para mim, passei a valorizar cada alimento. Afinal, mundo afora, há pessoas que não possuem sequer o caldo da buchada para comer, ou melhor, para beber.

Essa compreensão me faz perceber que nem tudo deve ser avaliado pela aparência, pelo preço ou pelo padrão de qualidade ao qual estou acostumado. Ao passo que, se eu medir tudo com que convivo com a minha régua, correrei um grande risco de me decepcionar, seja com a “inferioridade” dos outros, seja com a minha também. Muitas vezes, o valor de algo está na intenção, no esforço e no afeto de quem oferece. Tenho convivido com isso quase que diuturnamente.

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Não pretendo afirmar que devemos aceitar tudo sem senso crítico. Acredito, porém, que é necessário distinguir aquilo que é maldade daquilo que é apenas simplicidade, falta de instrução ou uma forma diferente de enxergar a vida.

Por fim, reforço que este texto não pretende ensinar ninguém a viver. Com ele, não tenho a mínima pretensão de formar aura com six seven. Pretendo apenas registrar uma maneira pessoal de compreender as pessoas e lembrar que, antes de julgar, talvez seja necessário escutar.

Claiton Cavalcante é membro da Academia Mato-Grossense de Ciências Contábeis, do Instituto dos Contadores do Brasil e integrante da Rede InovaGov da Escola Nacional de Administração Pública.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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