Nesta segunda-feira, 02 de junho, iniciamos o semestre letivo de 2025/1 da Universidade Federal de Mato Grosso. Esse momento de ingresso de novos estudantes sempre é um momento especial, tanto para os estudantes, para suas famílias, para a UFMT, bem como para a sociedade.
Neste ano, a UFMT completará 55 anos em dezembro, e com muita tranquilidade, acredito que este seja o mesmo tempo em que existam trotes na universidade. Essa cultura de violência existe a séculos no mundo, e seu objetivo nunca foi e nem será incluir os estudantes na vida universitária.
Há muito tempo a UFMT tem envidado esforços de mobilizar toda a instituição em um processo de acolhimento que seja verdadeiramente inclusivo. E todo esse esforço se constituiu para apresentar uma forma mais humanizada de dar as boas-vindas aos ingressantes e construídas por várias mentes e mãos.
Ao tempo em que os semestres foram passando, de 2014 para cá, a antiga calourada e hoje a recepção aos estudantes da UFMT tem sido uma construção fundamental na luta contra a violência que ainda hoje perpetua no processo de ingresso semestre a semestre. Mas minha pergunta é: até quando?
Os estudantes quando realizam sua matrícula assinam um contrato de vida com a instituição de ensino superior, esse contrato lhe possibilitará no futuro ter uma profissão para ingresso ao mercado de trabalho. E para garantia da vida e da dignidade humana oferece um conjunto de direitos garantidos pela Constituição Federal Brasileira e todos os seus dispositivos.
Nenhum deles é o trote. Nenhum deles diz que se é dever raspar a cabeça, que andar de elefantinho (fila de calouros com mãos dadas um por debaixo da perna do outro), ir para o sinal pedir dinheiro para comprar bebidas para os veteranos e festas, nenhum deles diz que é dever receber plaquinha com nomes vexatórios como “gay”, “Xica da Silva”, “cota para Preto”, “Aberração da Natureza”, “incapaz”, e tantas outras atrocidades, que é obrigatório colocar cabeça em vaso sanitário, que é dever andar descalço no sol de 40 graus, fazer sexo oral em bananas com leite condensado, ou de joelhos para um veterano, ficar amarrado com fitas adesivas em poste, comer de faca no RU com uma mão e a outra amarrada no coleguinha, andar com cueca e calcinha por cima da roupa, os meninos usar sutiã, ter pênis desenhado no corpo, e as meninas ter que ficar de sutiã ou biquíni por cima da roupa e ter vagina desenhada no corpo. De usar produtos químicos como tesão de vaca nas bebidas, violeta e jenipapo para pintar os dentes, gasolina, água oxigenada e tinta. Beber até ter coma alcoólico, ser obrigado a transar com veterano, pagar bebida, almoço no RU ou ser serviçal de veterano. Não vi em nenhum deles dizer que se tem que cantar músicas LGBTfóbicas contra um pseudo curso rival, se pintar de preto, usar cocar de fantasia e se mais uma infinidade de coisas.
Esse conjunto de práticas abomináveis e muitas vezes criminosas seguem acontecendo as luzes das câmeras de segurança que existem na UFMT. Esses casos todos aconteceram por anos e na data de hoje ainda está acontecendo. Mas é preciso dar um basta. O pedagógico já vem sendo executado faz tempo com muita qualidade, mas o disciplinar e administrativo também precisa ser exercido para que de alguma forma se tenha a responsabilização dos envolvidos direta e indiretamente nos trotes.
Não é possível aceitar que durante o horário que o estudante deveria estar na atividade institucional, nos dez primeiros dias obrigatório, seja na atividade realizada pelas coordenações de curso, pelo movimento estudantil, seja pela própria gestão da universidade e esteja participando de trote. Não é razoável que exista uma liberalidade por parte de alguns coordenadores de curso, repito, alguns, que se indispõem do acolhimento institucional para passar sua responsabilidade para os veteranos que realizam o trote. Não é aceitável que esse estudante mesmo tendo uma programação que vai lhe incluir verdadeiramente na universidade seja direcionados para fora do espaço acadêmico para ser expostos situações vexatórias como se houvesse uma depreciação em entrar em um espaço extremamente privilegiado que é a universidade pública federal. Até porque para muitos, graças as políticas de ações afirmativas, são os primeiros de suas famílias ou localidades a ingressar no ensino superior público.
Desafio a esses veteranos a serem suporte ao calouro, que ajude encontrar um setor, que ensine uma informação no site da UFMT, que ajude a buscar assistência estudantil, que identifique um estudante vulnerável e doe uma régua, um jaleco, um estetoscópio, um livro da ementa, uma aula sobre um conteúdo que domina, uma festa de confraternização e paz, um copo para reduzir o uso de copos descartáveis, uma planta para os bosques da UFMT, que doe sangue, que arrecade alimentos, que ajude a chegar na biblioteca, no RU, nas quadras, na piscina. Ou que denuncie as violências e tantas outras ações que sejam de fraternidade e acolhimento. Será mesmo que esse momento especial precisa ser manchado com uma marca negativa? Os veteranos têm que buscar ser inspiração para os calouros pelo bom exemplo, pela sua inteligência e conhecimento, não pela violência e pelo abuso da autoridade, ou, pelo pequeno poder que pensam ter sobre quem está chegando na graduação.
É necessário acabar com essa cultura de violência generalizada que ainda insistem em manter. É preciso uma ação institucional para coibir, o quanto antes, essas práticas lamentáveis. É fundamental que seja denunciado, que haja investigação e devido processo legal, e responsabilização administrativa, criminal e cível de cada envolvido.
Ou se enfrenta o trote como se deve, ou aguardaremos a notícia que um dia alguém perdeu a vida na linha tênue que separa a brincadeira, da violência. O acolhimento, do crime. A vida, da morte. Sendo um esforço de toda a sociedade, que não compactua com essa barbárie. Mas especialmente da comunidade acadêmica da Universidade Federal de Mato Grosso. Nos unamos contra o trote ou sejamos coniventes com o crime.
Vinicius Brasilino é estudante de Ciência e Tecnologia da UFMT, presidente do Conselho de Política de Ações Afirmativas da PRAE-UFMT e presidente do Conselho Estadual da Juventude de Mato Grosso

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online
























