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Educação Ambiental: Da Conversão Ecológica aos Três “Ts”

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“A educação ambiental ampliou seus objetivos. Enquanto no início estava centrada principalmente na informação científica, na conscientização e na prevenção de riscos ambientais, hoje ela tende a incluir uma crítica aos “mitos” de uma modernidade fundamentada em uma mentalidade utilitária (individualismo, progresso ilimitado, competição, consumismo, mercado desregulado). Busca também restaurar os diversos níveis de equilíbrio ecológico, estabelecendo a harmonia dentro de nós mesmos, com os outros, com a natureza e outros seres vivos, e com Deus. A educação ambiental deve facilitar o salto em direção ao transcendente, que confere à ética ecológica o seu significado mais profundo. Ela precisa de educadores capazes de desenvolver uma ética da ecologia integral e de ajudar as pessoas, por meio de uma pedagogia da liberdade, eficaz, a crescer em solidariedade, responsabilidade e cuidado compassivo.” Papa Francisco, Laudato Si, 2015.

Hoje, 03 de junho, Dia Nacional da Educação Ambiental, não celebramos uma data do calendário ecológico apenas, mas, sim, celebramos os chamados de nosso saudoso Papa Francisco nos alertou na Laudato Si’ §217 quando disse, textualmente: “Não bastam as normas, sem uma conversão do coração”.

Da mesma forma, o Papa Leão XIV, seguindo na mesma direção insiste que “”É preciso passar dos discursos ambientalistas a uma conversão ecológica que transforme o estilo de vida pessoal e comunitário.” Pronunciamento na abertura  da Conferência “Espalhando a Esperança” ressaltando a necessidade de uma conversão ecológica do coração e estilos de vida, para atender a urgência das ações diante da crise climática que tanto fustiga o planeta e a humanidade, por ocasião das celebrações dos dez anos da Laudato Si, em 01/10/2025, em Castel Gandolfo.

Neste sentido, a Educação Ambiental é um caminho a ser seguido, um instrumento fundamental na transformação de nosos hábitos de consumo e consumismo, de desperdício, de geração de lixo e tantas outras mazelas que contribuem para a degradação e a poluição do ar, dos solos e das águas e a destruição do planeta.

No Brasil a Educação Ambiental foi tratada na Lei 9.795/99, que instituiu a Política Nacional de Educação Ambiental. Confirme seu  Art. 1o Entendem-se por educação ambiental (EA) os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade.

O Art. 2o define que “A educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não-formal”.

Todavia, a educação ambiental direciona-se também para outros públicos como gestores e trabalhadores dos setores público e privado, para as empresas, para os movimentos sociais, sindicais, comunitários e, também, para os fiéis de todas as Igrejas e Religiões.

Cabe enfatizar também que a Educação ambiental precisa ter uma dimensão crítica, libertadora, indo também `as estruturas políticas, sociais, culturais e econômicas, a partir das quais novos paradígmas devem definir as relações de trabalho e de produção, incluindo, é claro como os sistemas econômicos se relacionam com a natureza, com o consumo e com o mundo do trabalho, principalmente em vista das profundas transformações científicas e tecnológicas, como, por exemplo, a Inteligência Artificial (IA) e seus impactos na ecologia integral e no mundo do trabalho.

Voltando `a questão dos valores, é importante indagarmos que valores são esses que são o cerne da educação ambiental?

A política nacional da Educação Ambiental insiste, também, que “Art. 3o Como parte do processo educativo mais amplo, todos têm direito à educação ambiental” e, ao definir os princípios que devem moldar a educação ambiental, estabelece, na verdade os valores que a fundamentam.

Vejamos então: Art. 4o São princípios básicos da educação ambiental:I – o enfoque humanista, holístico, democrático e participativo; II – a concepção do meio ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, o sócio-econômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade; III – o pluralismo de idéias e concepções pedagógicas, na perspectiva da inter, multi e transdisciplinaridade; IV – a vinculação entre a ética, a educação, o trabalho e as práticas sociais; V – a garantia de continuidade e permanência do processo educativo; VI – a permanente avaliação crítica do processo educativo; VII – a abordagem articulada das questões ambientais locais, regionais, nacionais e globais; VIII – o reconhecimento e o respeito à pluralidade e à diversidade individual e cultural”.

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Ao definir os objetivos da Política Nacional de Educação Ambiental, a dimensão crítica está explicitamente estabelecida. Vejamos os tres primeiros desses objtivos: “Art. 5o São objetivos fundamentais da educação ambiental: I – o desenvolvimento de uma compreensão integrada do meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações, envolvendo aspectos ecológicos, psicológicos, legais, políticos, sociais, econômicos, científicos, culturais e éticos; II – a garantia de democratização das informações ambientais; III – o estímulo e o fortalecimento de uma consciência crítica sobre a problemática ambiental e social”.

De forma semelhante a Igreja, através das Encíclicas e das Exortações de diferentes Papas tem contribuido para uma melhor compreensão da educação ambiental, no contexto da Ecologia Integral, para a solidificação de valores referentes `as relações da humanidade com a natureza (as obras da criação) e também das relações humanas, sociais, econômicas e políticas, insistindo, por exemplo, “que não existem duas crises separadas, de um lado uma crise ambiental e de outro uma crise socioeconômica e política; mas apenas uma única e complexa crise socioambiental”, conforme consta da Laudato Si.  A solução passa, necessariamente, pelo cuidado com a natureza, mas também no cuidado com os pobres e excluidos, as maiores vítimas deste processo que culmina na crise climática e suas consequências. Neste sentido não podemos referir `a educação ambiental sem considerar as dimensões da justiça social, da justiça climática e da justiça intergeracional.

O Papa Francisco resumiu em Roma, em 2014, falando aos Movimentos Populares que “Terra, teto e trabalho” (frequentemente chamados de “os três Ts”) formam um tripé de direitos sagrados e fundamentais para garantir a dignidade humana. Esse conceito tem forte raiz na Doutrina Social da Igreja Católica, tendo sido difundido de forma marcante pelo Papa Francisco e reafirmado por seu sucessor, como em diversos pronunciamentos recentes do Papa Leão XIV em encontros com movimentos populares.

Esta Trilogia dos três “Ts”, não é slogan de partidos ou movimentos de esquerda ou  de movimento sindical. É parte integrante da Ecologia Integral e da Doutrina Social da Igreja e devem ser tratados também como base para uma educação ambiental critica e libertadora dentro e fora da Igreja.

Por isso, neste dia dedicado `a Educação Ambiental no Brasil, a pergunta que nos move é uma só: Sobre qual Educação Ambiental estamos falando? A que enfeita relatórios de ESG ou advoga apenas uma maquiagem, como na chamada “economia verde” ou a que muda hábitos, estilo de vida, estruturas sociais, econômicas, políticas que geram degradação ecológica, exclui os pobres e alimenta a pobreza e estimula o consumismo e o desperdício?

A educação ambiental crítica estimula atitudes que reduzem o consumismo e o desperdício, que estimula a partilha, a economia solidária, a agroecologia e o respeito aos limites da natureza e os direitos das gerações futuras. E neste sentido, seu foco passa do invidualismo para a dimensão comunitária,  coletiva.

Precisamos refletir que este é um convite  para a Igreja, para a escola, para o poder público, para os empresários e para o chão da fábrica, para os camponses, para povos indígenas, para passarmos da mera reflexão para ações sociotransformadoras, como recentemente se manifestou o Papa Leão XIV ao dizer  em sua primeira encíclica a Magnifica Humanitas, que o conhecimento, deve servir ao bem comum. O saber precisa ser democratizado e usado para “desarmar” as estruturas de desigualdade e exclusão, em vez de se tornar um monopólio de poucos.

Esta  exortação do Papa Leão XIV está em perfeita sintonia com a proposta de Francisco, na Laudato Si, ao vincular Educação ambiental com Espiritualidade ecológica e com o propósito da EA, no contexto de uma proposta mais ampla que é o Pacto Global pela Educação, ao escrever no Capítulo 6 (“Educação e Espiritualidade Ecológica”) à educação ambiental, definindo-a não apenas como conscientização científica, voltada apenas para o intelecto, mas como uma verdadeira mudança de paradigma que deve moldar um estilo de vida sustentável.

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Por esta razão insistimos que Educação Ambiental deve ser também e, principalmente, objeto das ações evangelizadoras da Igreja, dos cristãos, enfim, dos fiéias de todas as religiões, na dimensão sociotransformadora de nosas relações com a natureza e também nossas relações econômicas, sociais e polítcas em todos os países, inclusive no Brasil.

Como a Igreja no Brasil trabalha as questões socioambientais? A responsta pode ser encontrada nos diversos documentos como as Encíclicas Laudato Si, Fratelli Tutti, Magnifica Humanitas e as Exortações Apostólicas Laudate Deum, Querida Amazônia, Dilexi Te e diversos documentos como de Aparecida e outros mais do CELAM.

Mas, é importante também mencionar o Diretorio da Pastoral Social da CNBB, Doc  85, 2007; o “manual” que orienta toda ação social da Igreja no Brasil, onde aparece  a Educação Ambiental, no Cap. III, nº 89-92 – “Dimensão ecológica da caridade”. A CNBB afirma: “A caridade cristã, hoje, inclui necessariamente o cuidado com a casa comum. A Educação Ambiental é instrumento privilegiado da evangelização social, pois forma sujeitos capazes de novos hábitos e de transformação das estruturas”.

Se educação ambiental é caridade, a mesma não pode ser considerada apenas uma dimensão assistencialista como muitas pessoas imaginam, por exemplo, como conjugar distribuição de cesta base para famílias que não tem moradia digna e moram ao lado de esgoto e de lixões, sem a mínima dignidade? Será que neste contexto educação ambiental, no sentido de mudar hábitos funciona?

A Igreja reconhece na EA uma dimensão pedagógica da fé e que deve integrar a formação do cristão e a evangelização. Formar novos hábitos e estilo de vida como preceitua a Encíclica Laudato Si fazem parte das ações pastorais da Igreja e passa a ser um tema transversal que une ciência e religião, fé engajada e caridade libertadora, teologia, sociologia e antropologia.

Outro exemplo, o texto base da Campanha da Fraternidade de 2025, cujo tema foi a Ecologia Integral, esclarece que a “conversão ecológica (o caminho para mudanças de hábitos e de estilos de vida) deve refletir-se no âmbito comunitário, por meio da promoção da educação ambiental”.

O artigo 13 A da Política Nacional de Educação Ambiental instituiu o Junho verde vinculando-o `a educação ambiental não formal, ou seja, de difusão ampla e geral, com o objetivo de atingir o público em geral e despertar ou estimular a consciência ecológica/ambiental.

Vejamos, “Art. 13-A. Fica instituída a Campanha Junho Verde, a ser celebrada anualmente como parte das atividades da educação ambiental não formal” – § 1º O objetivo da Campanha Junho Verde é desenvolver o entendimento da população acerca da importância da conservação dos ecossistemas naturais e de todos os seres vivos e do controle da poluição e da degradação dos recursos naturais, para as presentes e futuras gerações. (incluido pela Lei 14.393/2022); § 2º A Campanha Junho Verde será promovida pelo poder público federal, estadual, distrital e municipal em parceria com escolas, universidades, empresas públicas e privadas, igrejas, comércio, entidades da sociedade civil, comunidades tradicionais e populações indígenas, e incluirá ações direcionadas para diversos setores, agentes e assuntos.

Diante dos desafios socioambientais que se agravam a cada dia, desperezar a Educação Ambiental Crítica é reduzir sua importância enquanto instrumento do despertar da consciência ecológica e, ao mesmo tempo, um mecanismo de transformações de hábitos e de estilos de vida, aspectos fundamentais para reduzirmos esta marcha irracional rumo `a  uma degradação ambiental edestruição dos biomas e ecossistemas.

Como sempre tem dito o Secretário Geral da ONU, a janela para impedirmos as catástrofes ambientais está se fechando e o tempo para agirmos está ficando mais curto. A hora de agir é agora e a educação ambiental é fundamental neste processo.

Juacy da Silva é professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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