Doutora em Psicologia e coordenadora-geral do Núcleo de Consciência Negra da Universidade de São Paulo (USP), Andreone Teles Medrado propôs, durante a palestra “Consciência negra, máscaras brancas: debate contemporâneo sobre necropolítica e antirracismo”, promovida pelo Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT), uma série de reflexões mais alargadas sobre o antirracismo e a necessidade de ações concretas no combate ao racismo.
Para a pesquisadora é preciso transformar ideias em ações. “A gente pode ter as melhores ideias do mundo. Eu poderia pensar horas e horas e deixar no livro. Se aquela ideia não transforma o comportamento meu ou de mais uma pessoa e assim por diante. São apenas ideias, como vai dizer a música, que existem na cabeça e não têm a menor pretensão de acontecer. A gente precisa de fato transformar ideias em ações e o antirracismo, como Angela Davis fala, não pode ser só uma pessoa que se diz não racista, tem que ser antirracista. E antirracismo não pode ser antirracismo se não for prática”.
Durante a palestra, Andreone lembrou ainda que não se pode falar sobre racismo a partir de uma lógica única. “O racismo não dá para ser colocado somente como a intersecção entre preconceito e discriminação. Ele corresponde à intersecção de uma série de práticas que participam da produção colonial da raça como a brancura, o nojo, a ideia de pureza, a héterocisnorma, o eurocentrismo, o cristianismo, a burguesia, o sexismo e o patriarcado. E quando juntam todos esses no núcleo de tudo isso, nasce o racismo. Então não dá para falar de racismo a partir de uma única lógica, a partir de uma única ótica, de um modo simplificado”, afirmou.
Outro ponto abordado pela pesquisadora foi sobre o papel das mulheres negras na construção do movimento negro. “Os grandes pensamentos no movimento negro foram feitos, pelo menos na minha perspectiva, por mulheres negras. As pessoas que realmente pensaram o movimento negro, que construíram grande base do movimento intelectual negro no Brasil, foram as mulheres negras. Porque, e a gente tá falando de raça, a gente tá falando de gênero também”.
Andreone Medrado é escritora, artista, fotógrafa, podcaster, cientista, bióloga, psicóloga e palestrante. Graduada em Ciências Biológicas (UNIFIEO) e em Psicologia (USP), tem mestrado em Fisiologia Neuroendócrina (USP) e doutorado em Psicologia (USP) pelo Departamento de Psicologia Experimental. É uma das fundadoras do primeiro Coletivo Negro – o Escuta Preta – no Instituto de Psicologia na USP e atualmente é coordenadora-geral do Núcleo de Consciência Negra na universidade.
A palestra foi realizada por iniciativa da Procuradoria de Justiça Especializada na Defesa da Cidadania, Consumidor, Direitos Humanos, Minorias, Segurança Alimentar e Estado Laico, em parceria com o Centro de Apoio Operacional (CAO) de Defesa dos Direitos Humanos, Diversidade e Segurança Alimentar.
O objetivo, segundo o MP, é de promover uma reflexão crítica sobre como o racismo afeta as relações interpessoais, o modo como as políticas públicas são estruturadas, os direitos são garantidos e a violência é legitimada, e como o antirracismo pode ser uma ferramenta de resistência e transformação, reconhecendo e valorizando a luta histórica da população negra.
Assista a íntegra da palestra:

























