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ARTIGO

Conduzir pelo retrovisor

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Retrotopia não é das palavras mais comuns. Ainda assim, talvez seja das que melhor caracterizam os tempos que vivemos — ainda que muitos nunca tenham ouvido falar dela. Devemos a sua formulação contemporânea ao sociólogo polaco Zygmunt Bauman, autor da ideia de sociedade líquida e um dos mais influentes pensadores das últimas décadas. No seu último livro, publicado postumamente em 2017 — Bauman faleceu em janeiro desse ano —, Retrotopia surge como conceito-chave para compreendermos algumas das transformações mais profundas das sociedades contemporâneas.

De forma simples, a retrotopia descreve uma inversão no modo como imaginamos o tempo. Durante grande parte da modernidade, o futuro era visto como o lugar da esperança: o espaço onde projetávamos sociedades mais justas, mais livres, mais desenvolvidas. Bauman mostra como, progressivamente, se foi generalizando um discurso de desconfiança, em que o futuro surge sob o signo da incerteza ou mesmo da ameaça. Diversos fatores contribuíram para este movimento: a precariedade económica, o aumento do custo de vida, a perceção de perda de controlo face a processos globais, a transformação acelerada dos media.

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Num dado momento, a retrotopia passou a cruzar-se com a política e com os media. Em vez de disputar projetos de futuro, muitos debates passam a organizar-se em torno da interpretação do passado. Deixámos de perguntar “que sociedade queremos construir?” para passar a perguntar “o que é que nos foi retirado?”. O slogan “Make America Great Again”, associado a Donald Trump, é uma expressão forte deste fenómeno. É daqui que emerge a gramática do populismo mediático: a construção de um “nós” lesado, a identificação de responsáveis e a promessa de restituição de uma suposta grandeza perdida.

Por seu lado, também os ecossistemas digitais favorecem este processo. As suas lógicas de visibilidade tendem a privilegiar conteúdos simplificados e emocionais, que facilmente viralizam. Narrativas que oferecem versões claras do passado, mesmo que historicamente frágeis, tornam-se mais competitivas do que discursos complexos ou orientados para o futuro. Por isso, a retrotopia é também uma forma de circulação.

Afirma Bauman que o passado a que se apela é, em larga medida, uma construção ficcionada, filtrada por memórias seletivas que apagam conflitos e contradições. É precisamente essa idealização que lhe dá força política: porque é emocionalmente convincente e sedutora, e porque responde à dificuldade crescente de imaginar o futuro.

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Portugal não está imune a esta lógica. O debate em torno da Revolução dos Cravos oferece um exemplo claro de como a retrotopia pode operar. Basta ouvir quem repete que “no tempo do Estado Novo é que era”, e ignora a censura, a PIDE ou a guerra colonial. A data reassumiu-se como tópico de disputa simbólica, sobretudo em ecossistemas mediáticos onde se misturam história e versões idealizadas do passado.

Retrotopia é como conduzir a olhar apenas pelo retrovisor, ignorando a estrada à frente: não avançamos ou avançamos sem direção. Ora, se o passado é o horizonte, o futuro deixa de ser projeto. E, sem projeto, o debate público perde densidade: torna-se mais reativo, mais polarizado, menos democrático. É este o aviso do último livro de Bauman — um aviso para quem insiste em conduzir pelo retrovisor.

Gil Ferreira é professor e pesquisador do Instituto Politécnico de Coimbra, Portugal.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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