No último mês de junho, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os dados preliminares sobre religião. A pergunta “Qual a sua religião ou culto?” foi feita a pessoas com 10 anos ou mais, com resposta aberta, posteriormente reclassificada em torno de oito categorias. Divulgadas quase três anos após a coleta realizada em 2022, essas respostas ainda carecem de dados desagregados, que possibilitariam realizar correlações com renda, escolaridade, denominações religiosas, entre outros. Ainda assim, é possível traçar um panorama das religiões praticadas — ou não — pelos mato-grossenses, a partir do Censo de 2022.
De acordo com o Censo, a população do estado de Mato Grosso cresceu apenas 1,92%, passando de 3.035.122 para 3.093.527 habitantes em 2022. Nesse período, as expressões religiosas que diminuíram em número de adeptos foram o catolicismo — que caiu 10,58%, passando de 63,4% para 56,7% — e o espiritismo, que apresentou uma queda relativa, caindo de 1,25% para 1,09%. Dentre as que mais cresceram estão a categoria “outras religiosidades”, que saltou de 0,26% para 3,17% da população. A umbanda e o candomblé, juntos, passaram de 0,06% para 0,42%; e as “tradições indígenas”, de 0,17% para 0,35%. Embora essas categorias somem apenas 3,94% da população mato-grossense, foram as que apresentaram maior crescimento relativo no período.
O número de evangélicos também apresentou crescimento, passando de 24,55% para 30%, uma variação de 22,2% em uma década. Já os que se declararam “sem religião” aumentaram de 7,72% para 8,14%, representando uma variação relativa de 5,44%. Aqueles que não souberam responder ou não declararam sua identidade religiosa somam 0,1% da população.
O que esses números revelam? O que é possível concluir a partir deles e do contexto em que estão inseridos? Ainda que prevaleça um acentuado número de adeptos do cristianismo — católicos e evangélicos juntos representam quase 80% da população mato-grossense — os adeptos de outras religiões não cristãs, bem como os que não seguem nenhuma religião, apresentaram expansão expressiva. Isso evidencia um pluralismo religioso crescente e até a possibilidade de não aderir a nenhuma religião.
Certamente, o contexto de liberdade religiosa, que permite tanto a adesão quanto o trânsito entre religiões, somado à ampla concorrência e à disponibilidade online de conteúdos religiosos, favoreceu o aumento da pluralidade na oferta de crenças. De acordo com o Censo de 2022, existem aproximadamente 10.300 estabelecimentos religiosos em Mato Grosso. A TV Record, cujo proprietário é o Bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, possui 18 retransmissoras e afiliadas em todo o estado, sendo responsável pela produção e retransmissão de programas religiosos. Esse fenômeno de midiatização das religiões tem sido replicado por diversas outras denominações nas últimas quatro décadas.
Vejamos essas mudanças no campo religioso e social com mais atenção. Assim como no cenário nacional, o número de católicos em Mato Grosso decresceu 10,58% em 2022. Essa queda foi menor que a da década anterior: entre 2000 e 2010, a variação negativa foi de 13,52%. Hegemônico por quase cinco séculos, o catolicismo apresenta, desde a década de 1950, um gradual decréscimo entre seus seguidores. Como parte integrante da cultura, as religiões não são ilhas; são atravessadas pelas transformações sociais, políticas, econômicas e culturais.
Em Mato Grosso, como em todo o país, esse processo foi favorecido pelo êxodo rural, pela expansão demográfica urbana, pelos processos de midiatização da cultura e pelo contexto de liberdade e concorrência religiosa. A religião tradicional, antes herdada geracionalmente, tornou-se mais porosa diante do aumento da concorrência, representada sobretudo pela miríade de igrejas evangélicas — mas não apenas por elas.
A esses fatores externos somam-se fatores internos ao catolicismo, como o acentuado clericalismo estrutural, que centraliza a atuação eclesial na figura do clero, dificultando a presença da Igreja nas periferias das grandes cidades, onde os evangélicos costumam chegar mais rapidamente. O número de pastores — e, em alguns casos, pastoras — é significativamente maior do que o de padres católicos. A formação de um padre dura no mínimo sete anos, enquanto há igrejas que formam pastores em menos de um ano. A construção de uma capela depende da hierarquia eclesiástica e pode levar anos; um templo evangélico pode ser instalado em poucos dias, com o aluguel de um imóvel. Tal agilidade se traduz não apenas em capilaridade e proximidade, mas também em linguagem e pautas mais próximas das demandas de seus fiéis.
Embora o catolicismo tenha decrescido, essa queda foi menor que na década anterior: entre 2000 e 2010, foi de 13,52%; entre 2010 e 2022, foi de 10,52%. Essa desaceleração pode ser atribuída a uma reação, marcada por uma modernização da linguagem e da comunicação dos católicos — com o uso de TVs e redes sociais — e pela própria pluralização interna da Igreja. O catolicismo é maior que a Igreja Católica institucionalizada e, hoje, apresenta ampla diversidade quanto aos modos de ser católico. Isso inclui até a possibilidade de ser católico sem frequentar nenhuma paróquia. As experiências religiosas na internet têm favorecido esse fenômeno.
Quanto aos evangélicos, observa-se um crescimento de 24,5% para 30%. Embora significativo, esse avanço perdeu força: entre 2000 e 2010, o crescimento foi de 47,09%; entre 2010 e 2022, foi de 22,2%. É a primeira vez, desde o censo de 1890, que o crescimento dos evangélicos desacelera. Embora continuem sendo o segundo maior grupo cristão no país, a desaceleração pode indicar uma saturação no processo de expansão.
Nos municípios de Rondolândia e Colniza, no noroeste do estado, os evangélicos já ultrapassaram os católicos. Em Rondolândia, 45,8% da população é evangélica, contra 42,2% de católicos. Em Colniza, são 44,8% de evangélicos e 40,1% de católicos, com quase 13% de pessoas sem religião. Esses municípios fazem fronteira com Rondônia, segundo estado com maior número de evangélicos do país. A pregação e propagação religiosa não reconhecem fronteiras e atuam por “contágio”, o que pode explicar essa predominância. Soma-se a isso o fator migratório. Mato Grosso, salvo raras exceções, é um estado com alta presença de migrantes. A migração, que desenraiza pessoas de suas bases culturais e familiares, favorece mudanças de identidade — inclusive religiosa. Quando há demanda por novas redes de pertencimento e acolhida em territórios desconhecidos, os evangélicos levam vantagem pela proximidade, mobilidade espacial, linguagens acessíveis e respostas mais imediatas aos desafios enfrentados por quem migra.
Esse é, contudo, um processo dialético que também leva católicos e adeptos de outras religiões a adotarem estratégias semelhantes.
Minha pesquisa sobre trânsitos religiosos em Mato Grosso, realizada em 2014, evidenciou que, entre a ampla diversidade dos evangélicos, os grupos que mais cresceram foram os pentecostais e algumas denominações neopentecostais. Dentre elas: Assembleia de Deus, Congregação Cristã, Batista, Igreja Universal, Mundial e Internacional da Graça — estas últimas com grandes investimentos em mídia, rádio e TV. A possibilidade de maior mobilidade estrutural, menor tempo de formação de lideranças e crescente ocupação midiática, somadas à atuação direta na política partidária em diversos municípios, favoreceram a visibilidade pública e o aumento do número de fiéis dessas igrejas.
Chama a atenção o crescimento da categoria “outras religiosidades”, que saltou de 0,26% para 3,17%, representando um aumento superior a 1.000%, ou mais de 98 mil pessoas. Nessa categoria incluem-se Testemunhas de Jeová, Mórmons — tecnicamente não considerados cristãos —, além de religiões tradicionais não cristãs (islamismo, budismo, judaísmo), novas espiritualidades, esoterismo, religiosidades não determinadas e múltiplas pertenças.
O grupo dos “sem religião” é o terceiro maior apresentado pelo IBGE. Embora tenha crescido — de 7,72% em 2010 para 8,14% em 2022 —, essa expansão desacelerou. São pouco mais de 250 mil mato-grossenses. O município com o maior número de “sem religião” foi Nova Nazaré, com 23,6% da sua população. Neste grupo estão incluídos ateus, agnósticos e os chamados “desigrejados” — aqueles que “creem sem pertencer”. Trata-se de um fenômeno em franca expansão, que aponta para um afastamento institucional e uma recusa dos mediadores tradicionais do sagrado, revelando uma tendência crescente de diminuição da transmissão geracional da religião. Em nível nacional, os jovens representam 40,3% dos que se declaram sem religião.
Outro grupo que, embora pequeno em números absolutos, cresceu significativamente foi o dos adeptos da umbanda, candomblé e outras religiões de matriz africana. Em Mato Grosso, eles passaram de 0,06% para 0,42%, totalizando 13.093 adeptos. Os municípios de Cuiabá, Várzea Grande e Rondonópolis concentram 68% dos praticantes dessas religiões. Embora numericamente menores se comparados aos grupos cristãos e aos sem religião, esse foi o segundo grupo com maior crescimento relativo — 600% em relação à década anterior.
O fortalecimento das lutas antirracistas, a conquista de marcos legais de inclusão social e política, o combate à intolerância religiosa e a valorização da identidade e ancestralidade afro ajudam a compreender esse crescimento. No entanto, é preciso reconhecer uma possível subnotificação, marcada ainda pelo racismo religioso persistente e pelas limitações metodológicas do Censo, que não capta com precisão a dupla pertença e as porosidades entre vivências religiosas — algo comum nesse grupo. O preconceito ainda existente pode fazer com que um adepto das religiões afro-brasileiras declare pertencer a uma religião majoritária, ocultando sua crença real.
O grupo dos adeptos da religião espírita, que em 2000 representava 0,95%, cresceu para 1,25% em 2010, mas caiu para 1,09% em 2022, apresentando uma variação negativa de 12,8% em uma década. Essa queda acompanha a tendência nacional. Entre as hipóteses para o decréscimo estão a intensificação da concorrência religiosa, os escândalos envolvendo lideranças históricas do espiritismo, bem como sua crescente participação na política partidária, o que pode ter gerado certa instrumentalização da fé.
Por fim, um olhar sobre a adesão às tradições indígenas. Mato Grosso possui 58.356 indígenas, dos quais mais de 45 mil vivem em terras indígenas e cerca de 13 mil residem fora delas. No entanto, apenas 10.835 se declararam praticantes de religiosidades indígenas. Embora esse número tenha aumentado de 0,17% para 0,35% da população, ele representa apenas um quarto do total de indígenas no estado. Isso pode indicar um acentuado processo de abandono das tradições originárias. Pesquisas realizadas em outras regiões do país sugerem que muitos têm aderido a outras religiões, especialmente às evangélicas, que atuam no interior das aldeias com apoio logístico e financeiro de missões estrangeiras.
Concluindo é possível afirmar: a) Comparando os censos de 1991 e 2000 com o de 2022, verifica-se um crescimento da pluralidade religiosa em Mato Grosso.
b) Apesar desse aumento, os mato-grossenses continuam majoritariamente cristãos, sejam católicos ou evangélicos, o que torna essa pluralidade ainda bastante seletiva.
c) O crescente envolvimento de lideranças religiosas na política partidária estadual e municipal tem produzido um fenômeno curioso: de um lado, há uma crescente visibilidade pública das igrejas e denominações; de outro, os resultados dessa atuação têm gerado certo desencanto entre os fiéis. Esse desencanto está, em grande medida, ligado à instrumentalização da fé por partidos políticos — sobretudo os de base conservadora, que são maioria nos legislativos e executivos locais e estaduais. Tal cenário pode impactar significativamente os trânsitos religiosos e os processos de desinstitucionalização religiosa nas próximas décadas.
A religião não ocorre em um vácuo social. Como outras dimensões da vida, ela influencia e também é influenciada por tudo aquilo que a cerca.
Prof. Dr. Adilson José Francisco é Pós-doutorando do Programa de Pós-graduação em História da UFMT e professor titular da UFR.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online























