Pois é! A situação não anda mesmo fácil. Depois de uns dias em Niterói, pegamos, no domingo (22), um uber para o Rio de Janeiro. O motorista era Cazé Filho, jornalista e roteirista, autor e diretor, com Milton Filho, de O Mar Serenou… Um Conto de Clara (Nunes), que ficou algumas temporadas no Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, onde conseguimos, no final da tarde, assistir a “Nossa História com Chico Buarque”.
Digo conseguimos, porque tentamos várias vezes adquirir o ingresso via internet, mas em vão. Ainda bem que algumas reservas foram bloqueadas. Nem precisamos comprovar a idade, ao comprar meia entrada. O bilheteiro se justificou: “anos de prática”. Eu completaria com uma gíria de antanho usada pelos cariocas: “anos de praia”. O musical é sobre a trajetória de duas famílias entre 1968 (ano do AI-5, defendido ardorosamente pela extrema direita) e 2022, enredada por 50 músicas de Chico, conduíte explorador do período da Ditadura Militar, da Redemocratização e do breve, porém perigoso, período do poder bolsonarista, além do surgimento dos influencers, para quem cada gesto é instagramável.
Na segunda-feira, fomos ao CCBB, bem ao lado da Candelária, onde na noite de 23 de julho de 1993 oito adolescentes foram chacinados por milicianos. Lá, vimos quatro exposições. Em uma delas (Do Sal ao Digital: o Dinheiro na Coleção Banco do Brasil), observei uma cédula do antigo marco alemão com o rosto de Karl Marx (aliás, a antiga moeda alemã tem muito a ver com ele). Não é uma cédula oficial e sim uma homenagem ao bicentenário de seu nascimento, lançada pela sua cidade natal: Trier. As outras foram “O Rio pelos Olhos de Debret” (mostrando o fausto da elite e a infortunada vida dos negros da época), “Inomináveis Presenças” (sobre perspectivas negras, indígenas e LGBTQIAPN+ nas artes visuais brasileiras) e “Ancestral Afro-Américas” (na qual me chamou a atenção quadros de Heitor dos Prazeres e Abdias Nascimento). Todas dignas de serem visitadas.
Na quarta, fomos ao Shopping Leblon, na exposição “Cazuza Exagerado”, mostrando de seu nascimento à sua morte, em 1990, vítima da AIDS. Algumas de suas frases me chamaram a atenção: “Sou burguês, mas sou poeta”; “Ser marginal foi uma decisão poética. Foi o único caminho que tive”; e “Decidi não ficar mais triste. Certas coisas não valem minha dor”.
Do “burguês” passamos aos “Trabalhadores”, nome da exposição de Sebastião Salgado, falecido há pouco mais de um mês. Em cartaz da Casa Firjan, na rua Guilhermina Guinle, em Botafogo, é composta por 148 fotografias, retratando proletários de diversas partes do mundo entre 1986 e 1992 (tanto em países ricos quanto em paupérrimos). Me chamaram especial atenção o trabalho degradante nas mineradoras indianas e nas plantações de chá africanas e operários de Gdansk (Polônia), onde surgiu o sindicato Solidariedade, liderado por Lech Walesa.
Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista

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