Dados coletados até dezembro de 2024 confirmam que este foi o ano mais seco da história do Pantanal, com base no monitoramento dos últimos 125 anos. A base naval de Ladário, localizada em Mato Grosso do Sul, registrou uma precipitação acumulada 36% inferior à média histórica da região. “A gente tem monitoramento e o menor registro histórico que a gente tem foi em 2024”, afirma Ibraim Fantin da Cruz, professor do programa de Pós-graduação em Recursos Hídricos da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
O pesquisador ressalta que, por ser uma planície sedimentar com alagamento lateral, o Pantanal é extremamente sensível a alterações no regime hidráulico. “Qualquer intervenção na geometria hidráulica pode modificar o período, a quantidade e a amplitude da inundação. Pequenas variações de 10 a 20 centímetros no leito do rio podem afetar até 30% da área inundada”, explica.
Essa topografia plana faz com que o bioma reaja de forma drástica a alterações no ciclo de inundações. Segundo o professor, as condições de seca hidrológica extraordinária também se caracterizou em toda a extensão do rio Paraguai, principal rio que forma o Pantanal.
Entre os fatores que contribuíram para o registro histórico de 2024 está também a presença de hidrelétricas, que alteram diretamente o regime de inundação. De acordo com um estudo conduzido pela Agência Nacional de Águas (ANA), com a participação de diversos pesquisadores, incluindo da UFMT, foram mapeados os impactos dessas instalações.
Atualmente, 46 hidrelétricas estão em operação, mas há previsão de construção de mais 130, sendo seis no rio Cuiabá. Essas estruturas não apenas causam alterações hidrológicas e na qualidade da água, mas também funcionam como barreiras físicas, prejudicando o processo de migração de peixes.
O estudo identificou pontos específicos no leito do rio Cuiabá onde a construção de hidrelétricas comprometeria diretamente a reprodução de espécies aquáticas, agravando o impacto sobre a biodiversidade do Pantanal.
Projeções do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) indicam que as secas no Pantanal serão mais frequentes e severas nos próximos anos. Modelos climáticos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) apontam um aumento tanto na intensidade quanto na duração dessas condições extremas.
Bioma que mais secou
Em junho deste ano, um amplo estudo lançado pelo projeto MapBiomas Água já revelava o cenário de alerta. Os dados apontavam que o Pantanal foi o bioma que mais secou entre 1985 e 2023.
Conforme o MapBiomas, a superfície de água anual (pelo menos 6 meses com água) no Pantanal em 2023 foi de 382 mil hectares – 61% abaixo da média histórica. Houve redução da área alagada e do tempo de permanência da água. No ano passado, apenas 2,6% do bioma estava coberto por água. O Pantanal responde por 2% da superfície de água do total nacional.
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