Desculpem os bolsonaristas, mas a atual implicância dos Estados Unidos com o Brasil não é uma defesa de seu mito ou uma deferência para com seus descendentes, embora sejam uma boa cortina de fumaça para desviar suas atenções. Não passa disso. Está mais para a fuga brasileira da total dependência aos interesses norte-americanos. Durante 80 anos, sucedendo o Reino Unido em 1920, eles foram o principal parceiro econômico do país. No entanto, desde 2009, veem Pindorama, a exemplo de vários outros países mundo afora, se desviando cada vez mais de sua órbita… rumo à China, hoje seu maior parceiro
Para quem não se lembra, mesmo após o Golpe parlamentar de 2016 e durante os quatro anos do governo de Jair Messias, apesar de todo esforço de subserviência ao Tio Sam, os chineses mantiveram esta primazia. Portanto, mesmo que a direita volte comandar o país, o que as pesquisas atualmente desmentem, tudo indica que o pragmatismo permanece. Na verdade, além maior parceiro econômico, os chineses transformaram o Brasil no principal destino de seus investimentos no mundo nos últimos cinco anos, dos quais 6,1 bilhões de dólares em 2025.
E, agora, mais uma “malcriação” do governo brasileiro, que fará a elite norte-americana “subir nas tamancas”. Segundo o noticiado na semana passada, tendo como fonte a Agência Reuters, o Brasil prepara sua primeira emissão de títulos públicos em moeda chinesa, alguns meses após fazer esta mesma operação em euro. O normal é fazê-la em real, mas o Brasil vem emitindo títulos deste tipo em moeda americana desde o século XIX, que já somam centenas de bilhões de dólares. Ou seja, mais uma primazia, junto ao Brasil, prestes a ser perdida pelos EUA. Por enquanto, são apenas pouco mais de uma dezena de países a fazer o que o Brasil está fazendo. O problema é que entre eles estão Rússia, Reino Unido, Hungria, Polônia, Portugal, Indonésia, Filipinas e Egito, entre outros. Podem ser poucos, mas a dispersão existe e pode crescer.
Como ninguém, exceto loucos ou acuados, rasga ou joga fora dinheiro, há, mínimo, dois motivos, para esta nova realidade. Taxas de juros e tratamento dispensado. O dinheiro investido por chineses custa bem menos que o investido pelos norte-americanos. A taxa de juros deles é mais baixa. Quanto ao tratamento dispensado aos parceiros, há uma diferença abissal. Enquanto os Estados Unidos tratam a ferro e fogo (intervindo, se necessário para defender seus interesses), o governo chines prefere a “malandragem”, como dizem os cariocas. Fazem afagos, não cobram taxas e ainda investem em infraestrutura. Recentemente, estendeu sua política de tarifa zero a 53 países africanos com quem mantem relação diplomática, continente onde europeus, por séculos, e estadunidenses usaram e abusaram. Aliás, nesta Copa do Mundo, eles já impediram um juíz africano de realizar seu trabalho, não deixando-o entrar no país. A FIFA calou-se. Quem cala, é sabido, consente.
Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online
























