Quem caminha por Cuiabá hoje, ou por qualquer outra grande cidade do Brasil, percebe algo diferente no ar. Nossos parques, que antes eram espaços subutilizados, agora estão lotados de gente, especialmente ao amanhecer e no final da tarde. Depois de tanto tempo confinados, a vontade de ver o sol nascer, de sentir o vento no rosto e de praticar uma atividade de fácil manutenção e baixo custo nos empurrou para as ruas. A corrida virou uma febre, e isso é maravilhoso. Afinal, nada supera a sensação de liberdade que o esporte ao ar livre proporciona.
Mas, como profissional de educação física, preciso fazer um alerta: existe uma linha tênue entre a saúde e o exagero. Hoje, vejo muitas pessoas começando a correr de forma totalmente despretensiosa. Elas calçam um tênis, saem pela porta e começam a trotar. Até aí, tudo bem. O problema começa quando essa “corridinha” vira um projeto de meia maratona ou maratona sem o devido preparo. Existe uma pressão social, alimentada pelas redes sociais, para que todo mundo seja “maratonista”. E, nessa ânsia de fazer parte do grupo, muitos acabam esquecendo que o corpo não é uma máquina que ignora a física.
Um dos maiores desafios que enfrento no dia a dia é o uso de planilhas prontas, retiradas de fontes duvidosas ou, pior, geradas por inteligências artificiais. Vamos ser sinceros: um software pode até calcular um volume de quilometragem, mas ele não vê como você pisa. Ele não sabe se você dormiu mal, se a sua alimentação está adequada para o gasto energético daquele dia ou qual é a sua mecânica de movimento real.
Correr é, essencialmente, fazer força em deslocamento. Se você não tem um olhar clínico de um treinador observando os seus movimentos, a conta chega, e geralmente ela vem em forma de lesão no joelho, tornozelo, quadril ou na coluna.
Precisamos encarar a realidade do envelhecimento. Com o passar dos anos, todos nós perdemos massa muscular (sarcopenia) e massa óssea (osteopenia). Isso é um processo biológico natural. Se você começa a correr sem um controle rigoroso de carga, volume e intensidade, você não está combatendo o envelhecimento, você está acelerando o desgaste das suas articulações. Inflamações como a famosa “síndrome do corredor” não nascem do nada, elas são o aviso do seu corpo dizendo: “você está passando do limite”.
A corrida é um remédio poderoso, mas, como qualquer remédio, a diferença entre a cura e o veneno é a dose. Muita gente acha que, para correr bem, basta correr muito. Errado. Para proteger seus ossos e articulações durante o impacto do exercício, você precisa de músculos fortes. A musculação, o treino funcional, o pilates ou o crossfit não são “coisas extras”: são a base de força para o deslocamento. O músculo funciona como um escudo que protege sua estrutura óssea. Sem força muscular, o impacto da corrida vai direto para a sua articulação.
Meu conselho para quem quer entrar no mundo da corrida e, mais importante, permanecer nele por muito tempo, é simples: busque orientação profissional.
Se você quer apenas se exercitar, ótimo. Mas se você quer estabelecer metas e desafios, como provas de longa distância, procure uma assessoria esportiva. Busque uma equipe multidisciplinar. Antes de sair aumentando o volume, faça um check-up com cardiologista, consulte um ortopedista se sentir dores persistentes e, pare de seguir as “vozes da sua cabeça” ou planilhas genéricas.
Praticar esporte é um ato de amor-próprio, mas o amor precisa ser inteligente. Planejamento, controle de carga e fortalecimento não tiram o prazer da corrida, eles garantem que você possa continuar correndo, sem dores, por muitos e muitos anos.
A rua está aí, o sol está lá fora. Aproveite, mas não esqueça: o seu corpo é o seu lar. Trate-o com o respeito que ele merece.
Suéllen Santos é profissional de Educação Física, treinadora de corrida e maratonista

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

























