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ARTIGO

Marielle Franco se fez verbo

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No dia 27 de julho de 2026, Marielle Franco estaria completando 47 anos. Cria da Maré, no Rio de Janeiro, como gostava de ser conhecida, transformou a sua existência em linguagem política. A trajetória extrapolou a biografia individual para se transformar em um símbolo de resistência democrática, de afirmação da dignidade humana e da luta das mulheres contra todas as formas de violência.

Não se trata da construção de uma heroína utópica. Marielle era humana, filha da favela, socióloga, mulher negra, mãe, defensora dos direitos humanos, parlamentar e militante. Justamente por isso sua história dialoga com milhões de brasileiras que, diariamente, enfrentam o peso acumulado do machismo, do racismo, da desigualdade econômica e da violência política.

O assassinato de Marielle Franco, em 14 de março de 2018, silenciou, também, simbolicamente as mulheres que ousam ocupar espaços tradicionalmente reservados aos homens. Quando uma mulher é morta atuando politicamente por estar incomodando, a democracia fica lesionada. E quando a mulher é negra e vinda da periferia, e se compromete com a defesa dos grupos vulnerabilizados, é visível que a violência se torna mais profunda.

Ao longo da história, mulheres foram sistematicamente afastadas da produção acadêmica, da participação política e da tomada de decisões públicas importantes. E quando conseguem “furar a bolha” enfrentam a violência pelo descrédito permanente. Assim, não basta que estudem mais, sendo necessária a prova diária da competência. Quando ocupam mandato eletivo, o esperado é que falem e apareçam menos. E, não basta que trabalhem, são perseguidas para alcançarem a perfeição, que, inclusive, jamais foi exigida dos homens.

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Marielle se recusou a pedir licença para existir politicamente. A sua existência deixava evidente que as mulheres negras, periféricas e comprometidas com os direitos humanos também produzem política de qualidade, elaboram projetos, fiscalizam governos e constroem democracia.

A igualdade fica difícil de ser alcançada quando barreiras culturais, econômicas e simbólicas continuam restringindo a participação feminina. Marielle tornou-se um marco histórico, pois a sua trajetória demonstrou que políticas públicas voltadas às mulheres não constituem privilégios, mas instrumentos de correção de desigualdades produzidas historicamente. O enfrentamento à violência doméstica, a ampliação da participação política feminina, a proteção das mulheres negras, indígenas, quilombolas, trabalhadoras rurais, mães solo e mulheres LGBTQIAPN+ não estilhaça a sociedade, mas, sim, fortalece a democracia ao ampliar a cidadania.

A multiplicidade de mulheres é realidade. Gênero, raça, classe social, território, orientação sexual e tantas outras dimensões cruzam-se continuamente, produzindo formas específicas de vulnerabilidade. Marielle compreendia essa realidade porque a vivia.

A atuação política dela não desvinculou a pauta das mulheres da defesa da educação, da saúde, dos direitos das populações periféricas, da juventude negra, das mães vítimas da violência estatal e da proteção dos direitos humanos. A dignidade humana não admite cisões.

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Enquanto persistirem discursos que naturalizam o controle sobre os corpos femininos, que ridicularizam mulheres em posições de liderança, que aceitem a violência política ou que silenciem denúncias de violência, a igualdade permanecerá incompleta. Recordar Marielle Franco é reafirmar a resistência e a ética.

Mulheres livres tornam toda a sociedade mais livre. Marielle Franco ultrapassou o seu mandato. Ela permanece viva tal como um verbo conjugado no presente. A sua vivência e trajetória se perfazem em inspiração para as mulheres ocuparem espaços de poder, a reivindicarem direitos, e a denunciarem injustiças acreditando que a política pode ser instrumento de transformação social.

É de Marielle Franco: “O que é ser mulher? O que cada uma de nós já deixou de fazer ou fez com algum nível de dificuldade pela identidade de gênero, pelo fato de ser mulher? A pergunta não é retorica, ela é objetiva, é para refletirmos no dia a dia, no passo a passo de todas as mulheres, no conjunto da maioria da população, como se costuma falar, que infelizmente é sub-representada.”

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT, doutoranda em Educação pela UFMT, membra do IHGMT e da Academia Mato-grossense de Direito na Cadeira 29.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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