Mato Grosso venceu a primeira grande corrida do agronegócio brasileiro. Agora começa uma disputa muito mais complexa — e infinitamente mais estratégica. Não basta mais produzir. Será preciso transformar produção em poder econômico.
Durante mais de quatro décadas, aprendemos a produzir em escala. Transformamos um território antes considerado de baixa aptidão agrícola em uma das maiores fronteiras produtivas do planeta. Com tecnologia, empreendedorismo e trabalho, consolidamos a liderança nacional na produção de soja, milho e algodão, tornando Mato Grosso um dos protagonistas da segurança alimentar mundial. Essa foi a primeira grande revolução. Mas toda revolução cria novos desafios.
Existem momentos na história em que uma sociedade muda de direção. Não porque abandona aquilo que a tornou grande, mas porque compreende que o próximo ciclo de desenvolvimento exige uma nova visão. Mato Grosso vive exatamente esse momento.
Durante décadas, nosso sucesso foi medido em hectares cultivados, produtividade e toneladas colhidas. Esses indicadores continuam fundamentais, mas já não são suficientes para definir a competitividade da próxima geração. Produzir continua sendo essencial. Mas produzir, sozinho, já não basta.
A segunda revolução já começou. Ela não será medida apenas pela capacidade de colher mais. Será medida pela capacidade de transformar recursos naturais em riqueza permanente, empregos qualificados, inovação, tecnologia e desenvolvimento sustentável.
Os indicadores econômicos mostram que essa transformação já está em curso. Mato Grosso lidera o crescimento econômico brasileiro, registra expansão consistente da atividade industrial e alcançou, em 2025, a menor taxa de desemprego do país, com apenas 2,3%, segundo a PNAD Contínua do IBGE. Esses resultados não representam acontecimentos isolados. São evidências de uma transformação estrutural.
O Estado começa a deixar de ser apenas um grande exportador de commodities para construir uma economia baseada em valor agregado. A agroindustrialização é a face mais visível dessa mudança. Parte crescente da soja e do milho já é processada dentro do próprio Estado, ampliando renda, empregos, arrecadação e investimentos.
O recorde histórico de 13,01 milhões de toneladas de soja esmagadas em 2025 demonstra que Mato Grosso começa a capturar uma parcela muito maior da riqueza que antes era gerada fora de suas fronteiras. A Abiove confirma esse movimento: nos últimos 12 meses, a capacidade de esmagamento no Estado cresceu 21%, acima da média nacional de 7,3%.
As novas usinas de etanol de milho, a ampliação da indústria frigorífica, o fortalecimento da cadeia do algodão e os investimentos em biocombustíveis mostram que a riqueza começa, finalmente, a permanecer onde ela nasce. Cada tonelada de milho transformada em etanol representa energia, coprodutos para alimentação animal, novas cadeias produtivas e empregos qualificados. Cada tonelada de soja processada internamente gera muito mais valor do que a simples exportação do grão.
O algodão, por sua vez, oferece condições para impulsionar uma indústria têxtil muito mais robusta. Esse talvez seja o maior salto econômico da história recente de Mato Grosso. Deixamos de exportar apenas matéria-prima. Passamos a exportar inteligência industrial incorporada aos produtos.
Os investimentos previstos para a indústria nacional de processamento de soja demonstram que essa transformação tende a acelerar. O estudo do Itaú BBA projeta R$ 11,3 bilhões em investimentos no esmagamento brasileiro até 2027, com aumento de 37 mil toneladas por dia na capacidade nacional.
Ao mesmo tempo, estudos apontam que Mato Grosso poderá ampliar significativamente seu excedente exportável de soja — em 9,9 milhões de toneladas até 2027 — justamente porque sua produção cresce mais rapidamente do que sua capacidade industrial local. Esse dado deve servir como alerta. A próxima década exigirá investimentos ainda maiores em processamento, logística, armazenagem e infraestrutura industrial. Quem antecipar esse movimento estará posicionado para capturar os maiores ganhos de valorização.
Entretanto, limitar essa transformação apenas ao agronegócio seria reduzir o verdadeiro potencial de Mato Grosso. O Estado reúne uma combinação rara de ativos estratégicos. Além de sua liderança agrícola, possui enorme potencial mineral, recursos energéticos, localização logística cada vez mais atrativa diante dos modais ferroviários em plena expansão e um ambiente favorável para investimentos de longo prazo.
A mineração já deixou de ser promessa para se tornar realidade produtiva em escala. Mato Grosso registra hoje 13.627 processos minerários — um crescimento de quase 130% desde 2018, quando havia 5.926 registros, segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM). A área sob interesse ou operação do setor soma 22,5 milhões de hectares, equivalente a 24,9% do território estadual e a uma extensão comparável à do Reino Unido. O valor da produção mineral saltou para R$ 7 bilhões anuais, representando mais de 4% do PIB estadual e colocando o Estado na 5ª posição nacional do setor.
Esses números não representam apenas estatísticas. Representam empregos, arrecadação, investimentos e a consolidação de um novo vetor de desenvolvimento sustentável.
Em Nova Xavantina, a NX Gold S.A. (controlada pela canadense Ero Copper) opera uma mina subterrânea e planta de tratamento com capacidade para 300 mil toneladas por ano. Em 2024, a unidade produziu 57.210 onças de ouro, empregando 558 trabalhadores diretos e 271 terceirizados. A empresa mantém programa de pesquisa exploratória no Vale do Araguaia, com investimentos projetados de mais de R$ 110 milhões entre 2024 e 2027.
Em Pontes e Lacerda, a Aura Minerals produziu 37.173 onças de ouro em 2024, consolidando a região como polo aurífero relevante. Um grupo canadense anunciou aporte de R$ 224 milhões em quatro anos para minas localizadas em Pontes e Lacerda e Porto Esperidião. Na região de Cuiabá e entorno, a atividade mineral ganha escala aproveitando a proximidade com o Escudo Cristalino do Brasil Central — formação geológica rica em ouro, cobre, níquel e minerais estratégicos.
O Cinturão Aurífero de Alta Floresta, com cerca de 500 km de extensão, completa esse cenário. Em novembro de 2025, a ANM renovou a concessão do Projeto Colíder (10 mil hectares) para a GoldMining Inc., válida por três anos. A empresa também detém o projeto Batistão (5.107 hectares), a 25 km de Peixoto de Azevedo.
A diversidade do subsolo mato-grossense vai além do ouro. Os processos minerários registrados pela ANM indicam a presença de cobre, níquel, manganês, diamante e argila em diferentes regiões do Estado. O ouro, no entanto, aparece como a substância mineral mais buscada, concentrando a maior parte da área requerida nos processos de pesquisa e exploração.
O calcário, insumo crítico para agricultura e construção civil, já coloca Mato Grosso em posição de destaque nacional. Estudos apontam ainda para depósitos de fósforo e potássio — minerais estratégicos para a produção de fertilizantes, conectando diretamente o potencial mineral à competitividade agrícola brasileira.
A expansão do setor também assume novas formas. No primeiro trimestre de 2026, a participação de Mato Grosso na mineração cooperativista formalizada alcançou 32,79%, tornando o Estado referência nacional nesse modelo. Órgãos estaduais e federais iniciaram novos mapeamentos do subsolo em busca de terras raras e minerais estratégicos voltados à transição energética global.
Mais do que diversificar a economia, a mineração fortalece um modelo integrado de desenvolvimento. Ela amplia investimentos, gera empregos qualificados, estimula inovação tecnológica e reduz a dependência de cadeias externas para insumos críticos. No entanto, uma transformação dessa magnitude exige responsabilidade.
A expansão da fronteira mineral precisa caminhar lado a lado com governança ambiental sólida, planejamento territorial baseado em dados e fiscalização rigorosa. O fortalecimento do Arco Norte e a diversificação econômica dependem não apenas de quanto extraímos, mas de como extraímos. A segunda revolução não será construída pela quantidade de processos minerários. Será construída pela inteligência com que transformamos recursos naturais em riqueza permanente.
É justamente nesse ponto que nasce a verdadeira Segunda Revolução de Mato Grosso. Ela não representa apenas a evolução do agronegócio. Representa o surgimento de um novo modelo econômico. Um modelo no qual agricultura, agroindústria, mineração estratégica, energia renovável, logística e inteligência territorial deixam de atuar isoladamente para formar um único ecossistema de desenvolvimento.
Mato Grosso possui condições de tornar-se um dos maiores polos de recursos estratégicos da América do Sul. Poucos territórios no mundo concentram simultaneamente cinco vetores dessa magnitude:
Liderança agrícola — maior produtor nacional de soja, milho e algodão, com mais de 31 milhões de cabeças de bovinos.
Disponibilidade mineral — 22,5 milhões de hectares com processos minerários ativos, com ouro, cobre, níquel, manganês, calcário, fósforo e potássio.
Expansão industrial — recorde de 13 milhões de toneladas de soja processadas em 2025.
Energia renovável — etanol de milho, biodiesel e biomassa em crescimento acelerado.
Capacidade logística em expansão — Ferrovia FICO, Ferrovia Norte-Sul, Ferrovia Estadual de Mato Grosso Senador Vicente Vuolo e a futura Ferrogrão, somadas a um ambiente favorável aos investimentos, com o menor desemprego do país e crescimento econômico líder.
Essa combinação cria uma oportunidade histórica. A competitividade da próxima década dependerá da integração de seis grandes pilares:
1. Agregar valor à produção dentro do Estado, ampliando processamento, industrialização e exportação de produtos de maior valor agregado.
2. Transformar o potencial mineral em vetor de desenvolvimento econômico, fortalecendo cadeias produtivas, fertilizantes, metais estratégicos e novas oportunidades industriais.
3. Expandir armazenagem, ferrovias, rodovias, hidrovias, energia e corredores logísticos capazes de sustentar o crescimento das próximas décadas.
4. Consolidar Mato Grosso como referência nacional em biocombustíveis, bioenergia e outras fontes renováveis.
5. Utilizar tecnologia, ciência de dados, inteligência artificial, geotecnologias e planejamento territorial para orientar investimentos e decisões públicas e privadas.
6. Preparar profissionais capazes de atuar em uma economia muito mais sofisticada, tecnológica e integrada.
Esses pilares não competem entre si. Eles se complementam. Juntos, formam a arquitetura econômica da próxima geração.
O próximo ciclo exigirá planejamento territorial, segurança jurídica, sustentabilidade ambiental, infraestrutura moderna e decisões cada vez mais baseadas em informação qualificada. Empresas decidirão onde instalar novas indústrias. Investidores escolherão regiões com maior potencial de valorização. Instituições financeiras utilizarão inteligência territorial para avaliar riscos. Governos precisarão planejar os próximos trinta anos — e não apenas a próxima safra. Nesse cenário, informação deixa de ser apenas apoio. Ela passa a ser infraestrutura estratégica.
É justamente nesse ponto que a segunda revolução se diferencia da primeira. A primeira transformou a paisagem do Cerrado. A segunda transformará a maneira como produzimos riqueza. Não se trata apenas de colher mais. Trata-se de decidir melhor. O verdadeiro diferencial competitivo da próxima década não será apenas produzir soja, milho, algodão ou carne. Será integrar alimentos, agroindústria, energia, mineração estratégica, infraestrutura, inovação e inteligência territorial em um único projeto de desenvolvimento.
A primeira revolução colocou Mato Grosso entre os maiores produtores de alimentos do planeta. A segunda poderá posicionar o Estado como uma das maiores economias agroindustriais e de recursos estratégicos do mundo. A oportunidade está diante de nós. A história mostrará se teremos visão, planejamento e coragem para transformá-la em realidade. Porque a Segunda Revolução de Mato Grosso já começou. E ela não será lembrada apenas pelo que produzimos. Será lembrada pela inteligência com que escolhemos construir o futuro.
Stéphano Benevides do Carmo atua há mais de três décadas na gestão pública. Atualmente, utilizando toda sua experiência, é Diretor da Classe A Agro, empresa especializada em negócios rurais, investimentos e inteligência estratégica para o agronegócio. Ao longo de sua trajetória participou de projetos relacionados ao desenvolvimento regional, infraestrutura, regularização fundiária e atração de investimentos para Mato Grosso.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

























