A expressão “rouba, mas faz” sintetiza um fenômeno da cultura política brasileira caracterizado pela tolerância mansa e ingênua à corrupção em troca da entrega visível de obras públicas e realizações administrativas. Nestas eleições em Mato Grosso temos casos de políticos que são marcados por estes dois extremos controversos, 1) o candidato que se apresenta como tocador de obras, 2) mas que está envolvido em escândalos de corrupção. A pergunta que não quer calar: Mato Grosso vai eleger um candidato que “rouba, mas faz”? Um tocador de obras e de corrupção.
O candidato conhecido como “rouba, mas faz” representa a percepção — ou justificativa eleitoral — de que desvios éticos ou o roubo de dinheiro público seriam secundários se o governante for administrativamente eficiente, construindo infraestrutura, hospitais, estradas ou implementando programas de impacto direto.
Para parcelas da população historicamente desassistidas pelo Estado, a corrupção é percebida como uma constante ubíqua e inevitável no sistema político. Diante da premissa generalizada de que “todos os políticos se apropriam do erário”, a escolha racional do eleitor recai sobre aquele que, além de fazê-lo, entrega melhorias materiais concretas para o seu cotidiano (“o outro rouba e não faz nada”).
O fenômeno sinaliza a fraqueza dos mecanismos de prestação de contas horizontais (instituições de controle como Ministério Público, Tribunais de Contas e Judiciário) e verticais (eleições). Quando as instituições falham em punir com celeridade os desvios, a ética pública perde força normativa perante o eleitorado.
Fetiche do “Tocador de Obras” ladrão
A cultura política brasileira tradicionalmente supervalorizou o gestor centralizador, resolutivo e focado em infraestrutura pesada (obras viárias, concreto, monumentos), em detrimento de reformas estruturais de longo prazo ou políticas de transparência institucional, cujos resultados são menos visíveis a curto prazo. O voto passou a ser trocado não apenas por favores individuais imediatos, mas por bens coletivos visíveis (asfalto, pontes, escolas, hospitais), mesmo que o político “tocador de obras” esteja envolvido em casos de corrupção.
Eleger um político que rouba, mas faz é a deslegitimação da ética pública: enfraquece a noção de cidadania; reduz a política a uma relação transacional e mercantil entre governantes e governados. Promove uma distorção das prioridades orçamentárias, estimulando governos corruptos a priorizarem obras de grande porte e alta visibilidade — propensas a superfaturamento e retorno eleitoral rápido — em detrimento de investimentos contínuos em qualidade da educação, saúde básica e eficiência de processos públicos.
Este é um desafio contemporâneo. Embora os avanços na legislação de transparência (como a Lei de Acesso à Informação e a Lei da Ficha Limpa) e a atuação dos órgãos de controle tenham aumentado o escrutínio público, analistas destacam que a tensão entre eficiência de entrega e probidade administrativa permanece como um dilema recorrente no debate eleitoral brasileiro. Mato Grosso corre o risco de eleger mais um político desta linhagem podre do “rouba, mas faz”.
*Pedro Pinto de Oliveira é jornalista e professor da UFMT. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP e Doutor em Comunicação pela UFMG.
























