Ao longo de três décadas realizando, coordenando e julgando auditorias operacionais em políticas públicas complexas, aprendi que é comum a adesão a afirmações categóricas sem amparo em dados, sobretudo quando confirmam preconceitos arraigados. Também aprendi que decisões tomadas sem verificação rigorosa dos fatos levam a erros institucionais, pessoais e sociais.
Como conselheiro independente certificado, participo ativamente de diversos fóruns e círculos de debates envolvendo diversos temas ligados à governança corporativa. Neles convivo com colegas de formações e experiências diversas e relevantes, em regra motivadas por bons propósitos em relação ao Brasil.
Assim, foi com tristeza, embora sem surpresa, que me deparei com manifestações de pessoas instruídas reproduzindo afirmações infundadas sobre o Bolsa Família. Analisarei aqui os três mitos mais recorrentes.
- que o programa desestimula o trabalho, especialmente na construção civil;
- que incentiva mulheres — sobretudo no Nordeste — a terem mais filhos, para ganharem mais adicionais;
- que é um assistencialismo permanente, sem mecanismos de saída.
Uma simples consulta a fontes de dados idôneas revela a falsidade de cada uma dessas premissas.
Iniciemos pelo fluxo de entrada e saída do Bolsa Família no quinquênio 2022-2026. Este período reflete mudanças estruturais, como a transição para o Auxílio Brasil e o posterior retorno ao modelo original, com ajustes para correção de distorções. O programa teve um crescimento expressivo durante a pandemia e o período eleitoral de 2022, seguido por um processo de fiscalização e busca ativa a partir de 2023. O “pico” de famílias assistidas ocorreu em dezembro de 2022, com 21,6 milhões de famílias. Em abril de 2026, são 18,9 milhões de famílias. ao contrário do que frequentemente se propaga, o número de famílias assistidas caiu mais de 10% desde janeiro de 2023.
Apenas entre janeiro e outubro de 2025, cerca de 1,3 milhão de famílias saíram por aumento real de renda e formalização do trabalho. Por outro lado, em virtude da busca ativa realizada pelas prefeituras, todos os meses entram no Programa milhares de novas famílias elegíveis que estavam fora do sistema. Ademais, cerca de 2,3 milhões de famílias estão na chamada “Regra de Proteção”, onde recebem 50% do benefício por até um ano após conseguirem um emprego, garantindo uma saída gradual.
Estudos do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) demonstram que o Bolsa Família não reduz a busca por emprego. Na realidade, a grande maioria dos beneficiários adultos já trabalha, mas na informalidade ou em subempregos com remuneração insuficiente para tirar a família da linha da pobreza. E a taxa de participação no mercado de trabalho entre beneficiários costuma ser similar ou até superior à de pessoas com o mesmo perfil socioeconômico que não recebem o benefício.
Quanto ao mito de que o benefício incentivaria o nascimento de mais filhos, os números mostram o contrário. Entre 2003 e 2013 (período de consolidação do programa), a média de filhos por família no Brasil caiu 10,7%. Já entre os 20% mais pobres, a queda foi de 15,7%. A maior redução de natalidade em todo o país foi registrada justamente entre as mulheres mais pobres do Nordeste, com uma queda de 26,4% no mesmo período.
Sob a ótica econômica, o adicional por dependente é insuficiente para cobrir o custo real de criação de uma criança (alimentação, vestuário, saúde). Além disso, a segurança alimentar propiciada pelo programa permite que os pais priorizem a qualidade de vida e educação dos filhos existentes, em vez de expandirem a prole.
Para receber o benefício, as famílias devem cumprir condicionalidades, como o acompanhamento de saúde. Isso coloca a mulher em contato frequente com postos de saúde, facilitando o acesso a métodos contraceptivos e orientações médicas. E como o benefício é pago preferencialmente à mulher, ter controle sobre a renda familiar fortalece a sua autonomia.
Quanto à falta de mão de obra na construção civil, ela não decorre do Bolsa Família, mas de fatores estruturais. Atualmente, a taxa de desemprego está estabilizada em patamares historicamente reduzidos. Nesse cenário, a construção civil se destaca como um setor cuja dinâmica ocupacional é marcada por salários relativamente baixos, elevada informalidade e vínculos predominantemente temporários, com alta rotatividade e menor estabilidade laboral. Assim, muitos trabalhadores que antes aceitavam funções pesadas na construção migraram para o setor de serviços e logística (como entregas por aplicativo), que oferece maior flexibilidade. Soma-se a isso a modernização tecnológica do setor, que ampliou a demanda por mão de obra especializada, como operadores de máquinas.
Desta forma, as evidências empíricas desmentem de maneira inequívoca os três mitos acima descritos, que são repetidos à exaustão, mesmo em ambientes profissionais que deveriam prezar pela qualidade na abordagem de temas sensíveis.
Um dado final para contextualizar o debate: em 2025, o orçamento do Bolsa Família foi de R$ 160 bilhões — montante que representa menos de um terço das renúncias fiscais brasileiras, que somaram R$ 544 bilhões. Estas incluem desde desonerações setoriais até a importação de jatos e embarcações de luxo.
Como toda política pública, o Bolsa Família deve ser avaliado, criticado e aperfeiçoado. Mas é essencial que o debate público acerca de um programa tão relevante esteja amparado em dados e não em preconceitos.
Luiz Henrique Lima é professor e conselheiro independente certificado

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online























