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ARTIGO

Quanto vale o tempo?

A vida do trabalhador na escala 6×1.

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Quanto vale o tempo de quem trabalha? Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes deste Dia do Trabalhador. Em um país onde o tempo de quem trabalha quase nunca entra na conta, a discussão sobre o fim da escala 6×1 colocou no centro do debate público aquilo que por muito tempo foi tratado como normal: viver para trabalhar. A mobilização popular, impulsionada por vozes como a de Rick Azevedo, trabalhador que se tornou um dos rostos do Movimento Vida Além do Trabalho, deixou muitos parlamentares em cima do muro.

De um lado, parte dos setores mais ricos da sociedade defende maior flexibilização das leis trabalhistas, como se a relação entre empregado e patrão acontecesse sempre em condição de igualdade. De outro, está a massa trabalhadora, o braço que sustenta a produção do país, pedindo algo simples e profundamente humano: jornadas menos exaustivas, remuneração justa, descanso, saúde e dignidade. Direitos trabalhistas não são privilégios. Férias, 13º salário, FGTS, descanso semanal  remunerado e limites de jornada são conquistas essenciais para qualquer sociedade que se pretenda minimamente justa.

O Brasil é um país rico, produtivo e com enorme potencial econômico. Somos um dos principais mercados do mundo. Mas nenhum país avança de verdade quando trata o tempo do trabalhador como algo descartável. Crescimento econômico não pode ser construído sobre a exaustão de quem trabalha. O fim da escala 6×1 representa mais do que uma mudança na organização do trabalho. Representa uma nova forma de olhar para quem sustenta, todos os dias, a economia do país.

A conta não é difícil: o que vale mais para o país, um trabalhador motivado, descansado e com saúde, trabalhando cinco dias por semana, ou um trabalhador adoecido, cansado e exausto, trabalhando seis? A produtividade não pode ser medida apenas pelo número de horas dentro do ambiente de trabalho. Também precisa considerar disposição, qualidade de vida e capacidade real de produzir melhor. Experiências internacionais também apontam nessa direção. No Reino Unido, um dos maiores testes com semana de quatro dias indicou manutenção da produtividade, melhora no bem-estar dos trabalhadores e redução de afastamentos por doença, mostrando que é possível reorganizar o trabalho sem abrir mão de resultado.

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Esse debate também não pesa da mesma forma para todos. Como destacou o relator das propostas, deputado Paulo Azi, o modelo atual de organização da jornada tem efeitos desproporcionais sobre mulheres, jovens, negros e trabalhadores mais pobres, comprometendo oportunidades de qualificação profissional e qualidade de vida. Para muitos jovens, trabalhar seis dias por semana significa adiar os estudos e perder oportunidades de formação. Para mulheres, significa somar uma jornada formal exaustiva à sobrecarga histórica do cuidado com a casa, os filhos e a família. Para trabalhadores negros, pardos e mais pobres, significa ter ainda menos possibilidade de romper ciclos de desigualdade.

No Brasil, os sinais de esgotamento estão por toda parte. Em 2025, a Previdência Social concedeu mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, um crescimento de 15,66% em comparação ao ano anterior. Esse dado não pode ser tratado como coincidência. Trabalhadores cansados, pressionados e sem tempo para viver adoecem. E quando isso acontece, quem paga a conta são as famílias, o sistema de saúde, a Previdência, as empresas e toda a sociedade.

Na área da saúde, especialmente na enfermagem, essa realidade é ainda mais dura. A luta contra a jornada de 44 horas semanais dialoga diretamente com esse debate. Para muitos profissionais, a escala exaustiva se soma à baixa remuneração, obrigando enfermeiros, técnicos e auxiliares a terem dois vínculos de trabalho, emendando um plantão no outro, muitas vezes sem tempo sequer de voltar para casa. São mães e pais que veem os filhos crescerem de longe. São casais que mal se encontram. São profissionais que cuidam da saúde dos outros, mas não conseguem cuidar da própria. 

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E qual é o preço desse tempo que não volta? Na escala 6×1, ou 44 horas semanais, quem paga a conta são as famílias trabalhadoras. Paga a criança que espera a folga do pai ou da mãe. Paga o trabalhador que vive cansado. Paga a mulher sobrecarregada. Paga o jovem que deixa de estudar.  Paga o profissional de saúde que adoece em silêncio. Por isso, o debate sobre o fim da escala 6×1 não pode ser reduzido a uma disputa ideológica. Ele é, antes de tudo, um debate sobre dignidade humana. É defender que o trabalhador tenha tempo para cuidar de si e dos seus.

Após intensa mobilização social, a pauta avançou na Câmara dos Deputados. Essa é uma oportunidade histórica para o Brasil discutir, com seriedade, que modelo de trabalho queremos construir. 

Neste Dia do Trabalhador, mais do que homenagear quem trabalha, precisamos escutar o que essa população está dizendo. O trabalhador brasileiro não quer privilégio. Quer dignidade. Quer salário justo, condições adequadas, respeito e tempo para descansar. Quer tempo para cuidar de si, para amar, educar, conviver e sonhar. Porque a vida não pode caber apenas entre uma jornada e outra.

Bruna Santiago é enfermeira

 

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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