As cidades de Cuiabá e Várzea Grande possuem mais templos religiosos do que o total de escolas e hospitais somados. É o que apontam os dados do Censo 2022 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na sexta-feira (02.02).
Essa realidade, no entanto, não é exclusiva da capital mato-grossense e da vizinha Várzea Grande. Ela se repete em Mato Grosso e também no Brasil, com 580 mil templos de diferentes religiões no país ante 264 mil instituições de ensino e 264 mil unidades de saúde – que juntos somam 512 mil estabelecimentos.
Em Cuiabá, o relatório do IBGE aponta que existem 577 instituições de ensino, 669 unidades de saúde e 1.401 igrejas e templos para uma população de 660 mil habitantes.
Em Várzea Grande, com uma população de 300 mil habitantes, o número de templos religiosos chega a 727. Já instituições de ensino são 222 e, unidades de saúde, 165. A soma destas duas últimas (387) dá quase a metade do número de igrejas na cidade.
Mais religiosos
Na lista de estados de “mais religiosos” estão em primeiro o Amazonas, com cerca de um templo religioso para cada 68 domicílios; em seguida o Acre, com 69 na mesma proporção; e o Amapá em terceiro lugar, com cerca de 79.
A partir dos dados, observa-se que a região Norte do país é a que soma mais igrejas e templos em comparação ao número de residências, com 459 a cada 100 mil habitantes. No total, a região contabiliza 79.650 igrejas.
Por outro lado, a região Sul – com os estados do Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina – tem a menor proporção de estabelecimentos religiosos por 100 mil habitantes, com 226.
Transição
Para o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, o alto número de estabelecimentos religiosos surpreende de certa forma se for comparado a estudos recentes, mas condiz com um fenômeno pelo qual o Brasil passa há muito tempo: o da transição religiosa. “Na época da monarquia, no primeiro Censo, você tinha mais de 99% de católicos. Havia um pouquinho de evangélicos vindos da Europa. Isso veio diminuindo ao longo das décadas, e agora os católicos estão em torno de 50%, e diminuindo ainda mais, enquanto os evangélicos são pouco mais de 30%”, diz Alves.
Pesquisa do cientista político Victor Araújo, associado ao Centro de Estudos da Metrópole (CEM), mapeou essa transição. Só em 2019, foram abertas 6.356 igrejas evangélicas no País, média de 17 por dia. O estudo rastreou 109,5 mil igrejas evangélicas de muitas denominações, ante cerca de 20 mil em 2015. O predomínio é das pentecostais. Entre os motivos do boom está o enfraquecimento do catolicismo, que perdeu alcance com a formação das periferias urbanas após o êxodo rural.
Mas, segundo Alves, os dados do IBGE são mais amplos. “As pesquisas anteriores consideraram os templos religiosos registrados, com CNPJ, enquanto a do IBGE pega todo estabelecimento religioso, com CNPJ ou não e não necessariamente templos. A Igreja Universal, por exemplo, pode ter uma casa num bairro pobre para distribuir alimentos, e ele é considerado um estabelecimento religioso. Vale também o contrário, a Igreja do Evangelho Quadrangular ter uma creche, e ela ser considerada um estabelecimento de ensino.”
Por isso, Alves diz ser preciso esperar novos estudos para não tirar conclusões precipitadas. “Esses dados são muito importantes, mas não dá pra tirar muita conclusão deles porque faltam muitos outros dados para se analisar.”
Confira o ranking de estados mais religiosos:
Estado / Proporção (Número de residências para cada tempo religioso)
- Amazonas – 68
- Acre – 69
- Amapá – 79
- Pará – 81
- Rondônia – 95
- Roraima 98
- Manaus – 102
- Espírito Santo – 114
- Tocantins – 127
- Bahia – 130
- Paraíba – 133
- Rio de Janeiro – 140
- Piauí – 140
- Mato Grosso do Sul – 148
- Mato Grosso – 151
- Alagoas – 151
- Sergipe – 155
- Ceará – 156
- Minas Gerais – 161
- Pernambuco – 164
- Goiânia – 169
- Rio Grande do Norte – 170
- Paraná – 200
- Rio Grande do Sul – 202
- Santa Catarina – 215
- Distrito Federal – 216
- São Paulo – 234
Os dados foram obtidos a partir das coordenadas geográficas do Censo 2022. Cada coordenada corresponde a um endereço visitado pelos agentes do recenseamento. O País tem 5.568 municípios.
Com informações do Estadão Conteúdo



























