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Cuiabá, entre amores e ódios

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Luiz Alves

rio cuiaba 2.jpg

 

Do Buraco da Memória: breves registros de datas e momentos de uma vida cuiabana. Carioca, cheguei a Cuiabá no mês de janeiro de 1981, virei cidadão cuiabano oficialmente em 1993, título concedido pelo então vereador José Antônio Rosa, e cidadão mato-grossense em 1998. Na verdade, o melhor título de cidadania que recebi foi dado informalmente por um médico, meu compadre, cuiabaníssimo do Coxipó da Ponte, Benedito Cesarino de Lara Fernandes. Uma vez, ele estava reclamando de Cuiabá e eu repliquei com uma apaixonada defesa da cidade, da cultura e da sua gente. Cesarino se rendeu e disse: “Pedro, você é mais cuiabano do que eu”!

 
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Sempre critiquei quem fala mal de Cuiabá vivendo em Cuiabá. A minha tese cultural é que os migrantes que chegaram aqui e conquistaram espaço profissional e alegrias pessoais foi porque tiveram, na grande maioria das vezes, uma acolhida calorosa do clima e das pessoas do lugar. Esse acolhimento sempre foi um fator importante para a adaptação de quem chegava para viver uma vida nova na cidade nova, para além de comer ou não cabeça de pacu. Uma qualidade intrínseca dos cuiabanos, o calor humano. A rejeição, o preconceito aos de fora, “paus rodados” ou “cus brancos”, sempre foi localizada, movida por parte da elite, nunca pelas pessoas mais simples, os cuiabanos que merecem todo o nosso respeito e admiração. 

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Eu “conheci” Cuiabá ainda no Rio de Janeiro, na convivência com os cuiabanos que moravam na cidade. O bolo de queijo, o bolo de arroz, o doce de leite com raspas de caju, são delícias da maravilhosa gastronomia cuiabana que experimentei ainda no Rio, nas festas dos amigos cuiabanos. Eram os cuiabanos que iam estudar nas universidades do Rio, como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ou a Universidade Federal Fluminense (UFF), entre eles um dos seus filhos mais ilustres, o engenheiro Dante Martins de Oliveira, ou trabalhar, como outro ilustre cuiabano de saudosa memória, o jornalista Jorge Bastos Moreno, ligado ao Grupo Globo. 

 

“Quem sabe a cidade eleja um candidato, em 2024, realmente comprometido em recuperar o que é nosso, o que é de Cuiabá: seu patrimônio histórico e cultural”

Os cuiabanos sempre se sentiram em casa no Rio. É uma relação antiga, da época de Filinto Müller, homem forte de Getúlio Vargas. Filinto abriu as portas, na década de 1950, para muitos cuiabanos que foram para o Rio de Janeiro, então capital federal, para morar e trabalhar lá. Perto da minha casa funcionava o Centro de Tradições Cuiabanas, exemplo do amor dos cuiabanos pela sua cultura e a importância que reconhecem de cultivá-la, em qualquer lugar onde estejam. 

 

Dos momentos profissionais no Jornalismo que me marcaram guardo a reportagem que fiz sobre a nascente do rio Cuiabá, “atravessando” o rio com uma passada só. Outras reportagens foram do cotidiano de denúncias e cobranças, de luta pelas melhorias de sempre, na saúde, na infraestrutura urbana e na preservação do meio ambiente. Uma indignação e desabafo: é doloroso ver o Centro Histórico abandonado, sem nenhuma política pública que preserve e utilize mais e melhor o espaço que é a maior referência da cidade. Como um bom cuiabano eu não desisto desta luta.

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Reprodução

Centro histórico cuiaba

 

Além de todas as mazelas e dificuldades em áreas prioritárias, a pauta da recuperação do Centro Histórico precisa ocupar parte dos debates da próxima eleição de prefeito. Quem sabe a cidade eleja um candidato, em 2024, realmente comprometido em recuperar o que é nosso, o que é de Cuiabá: seu patrimônio histórico e cultural. Um trabalho que exige, também, a parceria com o governo do estado, algo que hoje é impensável e impraticável. Não há parceria que sobreviva à briga política entre os atuais governantes de plantão, desafetos cultivados com ódios, vaidades e desprezo.

 

Entre amores e ódios, Cuiabá merece o reconhecimento de todos que amamos e admiramos a nossa cultura e merece que a gente registre o nosso repúdio à atual política feita de ódios entre desafetos que paralisa a inteligência e as ações em parceria entre governo e prefeitura a favor dos cuiabanos.

 

Pedro Pinto de Oliveira é jornalista do PNB Online, doutor em Comunicação pela UFMG e professor dos programas de pós-graduação em Estudos de Cultura Contemporânea (ECCO) e em Comunicação (PPGCOM), ambos da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

 

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