Beatriz Moreira Costa, imortalizada como Mãe Beata de Iemanjá, nasceu em Cachoeiro de Paraguaçu/BA, em 20 de janeiro de 1931, e fez a passagem em Nova Iguaçu/RJ, em 27 de maio de 2017. É mãe-de-santo, escritora e artesã, se destacando, também, na defesa e preservação do meio ambiente, dos direitos humanos, da educação, da saúde, e no combate ao sexismo e racismo.
Foi conhecida como beata desde a infância. O seu nascimento aconteceu de forma inusitada quando a sua mãe saía às pressas de um rio, após perceber que bolsa havia estourado. A sua família, como tantas outras, seguia os preceitos patriarcais. Mas, mesmo assim, ela cursou teatro amador e participou de grupos folclóricos. Através das suas andanças, presidiu a ONG Criola, que se perfaz em uma organização de mulheres negras que atua no enfrentamento ao racismo, ao sexismo e à violência contra as mulheres. Desenvolveu expressiva militância em prol da liberdade religiosa.
Assim, falar dela é mencionar a coragem de uma mulher negra que transformou a palavra em resistência, a espiritualidade em instrumento político e a ancestralidade em caminho de libertação feminina. Em um país marcado pela violência estrutural contra mulheres negras, pobres e periféricas, a sua trajetória permanece como uma denúncia viva contra o racismo, o patriarcado e a intolerância religiosa. Mais do que sacerdotisa do candomblé, Mãe Beata foi intelectual, escritora, educadora popular e símbolo de um feminismo enraizado na experiência das mulheres negras brasileiras.
A historicidade brasileira silenciou, durante muito tempo, mulheres como ela. O protagonismo feminino negro quase sempre foi reduzido à invisibilidade ou à caricatura. Enquanto homens ocupavam os espaços de poder, da política, e das academias; as mulheres negras sustentavam a vida social do país cozinhando, cuidando, limpando, e criando dos filhos e filhas. Nesse cenário, a existência de Mãe Beata foi um ato político. Sua presença rompeu a lógica colonial de reservar às mulheres negras o lugar da subalternidade.
O feminismo de Mãe Beata nasceu do terreiro, da oralidade, da vivência coletiva e da experiência concreta de ser mulher negra em uma sociedade racista. Ela é sobrevivência, memória e dignidade.
Mãe Beata reivindicou para si o direito à palavra. Escreveu livros, concedeu entrevistas, participou de debates e ocupou espaços tradicionalmente negados às mulheres negras religiosas. Sua voz recusou a submissão. Ao falar de ancestralidade, ela também falou de autonomia feminina. Ao defender o candomblé, ela defendeu igualmente o direito das mulheres negras de existirem sem pedir autorização à estrutura patriarcal branca que sempre tentou apagá-las.
A escrita de Mãe Beata rompeu séculos de epistemicídio, legitimando o conhecimento ancestral. O Brasil foi construído sobre uma lógica que valorizou o pensamento europeu e marginalizou as cosmologias africanas. Mulheres negras, sobretudo as ligadas às tradições afro-religiosas, foram frequentemente tratadas como supersticiosas, irracionais ou primitivas.
Não é possível falar em igualdade de gênero em um país onde mulheres negras continuam sendo as maiores vítimas de feminicídio, pobreza, violência obstétrica e intolerância religiosa. Mãe Beata compreendia isso intuitivamente, porque o seu corpo carregava todas essas marcas históricas. O terreiro passou a ser território de acolhimento, cuidado, proteção social e resistência comunitária.
A sociedade tolera a mulher negra quando ela se encontra na posição de servir, mas, raramente quando ela pensa, questiona e ocupa lugares de autoridade. Ela nunca aceitou o lugar historicamente imposto. É dela: “Para mim, não existe nem o ontem nem o hoje. Pra mim, existe o eterno e eu sou eternidade”.
Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT, doutoranda em Educação pela UFMT, membra do IHGMT e da Academia Mato-grossense de Direito na Cadeira 29.

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