Novas poéticas e decolonialidade. Esses são dois conceitos-chaves para o estudo do músico e pesquisador Glaucos Luis Flores Monteiro, que desenvolve atualmente seu doutorado no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea da Universidade Federal de Mato Grosso (PPGECCO/UFMT). Em entrevista ao PNB Online, Glaucos compartilha como sua caminhada artística se entrelaça com sua pesquisa acadêmica, culminando na investigação da ‘Música indígena brasileira’ e sua visibilidade nas redes sociais.

Como conta o músico, seu doutorado se concentra na investigação da existência da ‘Música indígena brasileira’ e na permanência de elementos tradicionais em manifestações contemporâneas expostas nas redes sociais, como Instagram, YouTube e Facebook. Além disso, ele pesquisa como a música indígena brasileira reverbera na criação musical contemporânea de autores urbanos, como ele próprio.
A influência decisiva para a pesquisa veio de sua participação no Programa de Residência de Composição da Orquestra Experimental de Instrumentos Nativos(OEIN) em La Paz, no ano de 2017. Essa experiência o mergulhou na música indígena boliviana, despertando sua consciência para a necessidade de compreender a música indígena brasileira. Glaucos percebeu que havia um mundo musical indígena em seu próprio país que ele, assim como muitos, não conhecia.
“Em 2017, participei de um programa de residência em La Paz, na Bolívia, em que fui um dos cinco compositores selecionados entre concorrentes de todo o mundo. Essa experiência foi uma imersão na música indígena, uma vez que a OEIN trabalha com instrumentos nativos andinos. Fiquei lá por aproximadamente um mês, além de um ano anterior de contato e pesquisa. Durante esse tempo, percebi que passei a conhecer de perto a música indígena boliviana, mas estava totalmente distante da música indígena brasileira”, compartilhou.
Sua pesquisa, entretanto, não se limita a explorar a música indígena, mas também busca exercitar novas poéticas e valorizar epistemologias decoloniais. Essa abordagem envolve não apenas a apreciação e compreensão da música indígena, mas também a incorporação de elementos dessa tradição na criação autoral, tanto em vídeo quanto em música. A ênfase recai na valorização de formas de conhecimento tradicionalmente marginalizadas e sub-representadas na sociedade.
Nesse sentido, Glaucos destaca a importância do conceito de decolonialidade em seu trabalho. “A decolonialidade não significa escolher entre diferentes influências culturais, mas sim a possibilidade de abraçar uma multiplicidade de influências. É um giro na percepção que permite que os músicos urbanos, incorporem elementos da música indígena brasileira em suas composições, ao mesmo tempo em que continuam influenciados por uma ampla gama de outras culturas musicais, como a africana e até a europeia”, afirma.
Um autor urbano e a música indígena
Como explica Glaucos, a abordagem da autoria e da criação musical contemporânea em sua pesquisa é moldada pela sua vivência como um músico urbano. Especialmente por ter crescido em Cuiabá, uma cidade que, em suas palavras, absorveu influências musicais da América Latina, especialmente dos Andes. “Minha ascendência guarani também teve um papel significativo em minha formação musical. Além disso, participei da cena de rock em Cuiabá e ajudei a fundar as primeiras bandas de rock na cidade”, detalha.
“Essa formação eclética e multicultural me levou a explorar uma reinvenção da música indígena brasileira como um autor urbano. Em meu doutorado, que leva no título o nome de uma das minhas composições, ‘Da Kabbalah à Pachamama’, exploro essa transformação, que vai desde meus primeiros dias como um músico de rock até a incorporação de elementos da música indígena em minhas composições. Isso representa um giro decolonial na minha trajetória, no qual passo a adotar uma perspectiva mais holística e xamânica, conectada com a terra e as tradições indígenas contemporâneas”, afirma.
Confira a composição ‘Da Kabbalah à Pachamama’, de Glaucos Monteiro.
























