Parece que a palavra laico, cujo significado é ‘aquilo que não pertence, não está sujeito ou não possui ligação com instituições ou influências religiosas’ não é bem digerida por uma parte dos evangélicos, que, vira e mexe, coloca Deus em suas contendas, enquanto, em seu nome, alguns se enriquecem financeiramente. Talvez, por egolatria, se esquecem que o laicismo não se aplica apenas a eles, mas a “influências religiosas” de forma bem ampla. Portanto, subentende-se, todas as religiões e crenças. Do catolicismo aos cultos afro-brasileiros e indígenas, passando pelo espiritismo, judaísmo, islamismo, budismo e etc. Assim reza a Constituição Brasileira, promulgada 38 anos atrás.
Embora o laicismo não impeça a liberdade de religião (cada um pode professar a fé que desejar), há os que chegam a tratar a questão como uma espécie de Guerra Santa, como numa cruzada contra pagãos ou hereges. Perdoem-me se estou errado (afinal, não fui e nem me sinto ungido para nada), mas não é dessa forma que está sendo tratada a disputa política deste ano? De um lado, os laicos, cuja campanha é pautada pelo racionalismo. De outro, os “ungidos”, como assim denominou a ex-primeira-dama Michele Bolsonaro o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), André Mendonça, na sua pendenga com Alexandre de Moraes. Ela teve feedback, já que o ministro foi às redes sociais “agradecer por tantas mensagens de oração” e dizer: “Estejam certos de que suas preces a Deus têm sido fundamentais para me sustentar e sustentar minha família”.
Tudo isso logo após ter quebrado o sigilo das mensagens do algoz de quem o indicou para o cargo da Suprema Corte. Sem entrar no mérito das quebras seletivas de sigilo, por ele ordenadas, um amigo me lembrou de um provérbio, surgido da tradição oral, que vem atravessando os séculos. É o famoso “Diga-me com quem andas e te direi quem és”.
O “ungido”, segundo a ex-primeira-dama, foi indicado ao STF pelo então presidente Jair Bolsonaro em julho de 2021. Apesar de usar um discurso baseado no lema Deus, Pátria e Família, em seu governo se mostrou justamente o contrário. Seu caráter misógino (desprezo pelas mulheres), homofóbico (aversão aos homossexuais), aporofóbico (ódio aos pobres), e entreguista e golpista se desnudou. Obviamente, o “ungido” tem a seu favor a presunção da inocência. Uma indicação, em princípio, não implica lealdade canina. Porém, ao que parece, a realidade tem insistido em nos desmentir.
Mudando o rumo da prosa, vi por estes dias um vídeo do ator Paulo Betti conclamando os brasileiros acima de 70 anos, especialmente os laicos e defensores de um governo voltado ao conjunto da sociedade, a irem às urnas no próximo dia 4 de outubro. Somos um contingente superior a 17 milhões de pessoas, dos quais quase 12 milhões entre 70 e 80 anos e 5,4 milhões acima 80. Bora votar?
Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista em Cuiabá.

























