Nunca antes na história deste país, nem mesmo com os generais-presidentes da ditadura militar, houve um presidente da República como Jair Bolsonaro, tão empenhado em militarizar a sociedade civil. Ele aparelhou o seu governo com milhares de militares, inclusive ocupando cargos de natureza civil. A nomeação de um general três estrelas da ativa para ocupar o Ministério da Saúde foi a marca trágica e real da falácia do mito da superioridade moral dos militares. As Forças Armadas são instituições do Estado brasileiro e cumprem deveres constitucionais. Não tem competência legal e nem competência profissional para ocupar os espaços das Forças Civis.
Sem contraponto, sem contrapalavra, o mito da superioridade moral dos militares resiste em boa parte do eleitorado brasileiro. É um fato que a extrema direita bolsonarista, com força de representação no Congresso, usa e abusa para sustentar suas estratégias político-ideológicas. Um dos temas caros do uso do mito da superioridade e personificado pelo “Mito” de Bolsonaro é a chamada escola cívico-militar. Os bolsonaristas fizeram nesta quarta-feira (6/12) o lançamento da Frente Parlamentar Mista em Defesa das Escolas Cívico-Militares. A cerimônia contou com a presença de grande elenco bolsonarista, incluindo a do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Leia também: Cenas da extrema direita no Brasil
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (PL), participou do evento e fez uma declaração emblemática da ideologia bolsonarista que sustenta a crença de que militarizar a vida civil é a melhor saída para uma sociedade sem educação de qualidade e sem segurança pública eficiente, conforme registrou o Blog do Noblat:
“A gente olha aqui os alunos das escolas cívico-militares e vê que a gente está diante de um novo Bolsonaro lá na frente”, discursou Tarcísio para plateia com parlamentares aliados e alunos. “Os alunos têm uma grande oportunidade. Como é bom ter um momento de amor à pátria. Ter disciplina, boa formação que vai fazer a diferença.”
Disciplina, obediência, são os valores caros desta escola-quartel, que reduz jovens civis a soldados. Nestas escolas, policiais militares e civis partilham a administração. De acordo com o novo modelo proposto por Bolsonaro, os militares atuam como monitores para auxiliar na gestão educacional e administrativa. Os professores são civis, e seriam responsáveis pela gestão da organização didático-pedagógica, bem como da financeira. Mas na prática a ideologia é da pedagogia fardada. A disciplina autoritária, sem liberdade, criatividade e autonomia, é a base da escola cívico-militar.
As professoras Bianca de Morais Canestraro Grizotes e Loriane Trombini Frick, no artigo “Escola Cívico-Militares e o desenvolvimento da moralidade” , apontam para as distorções deste modelo de escola. As escolas devem preparar para a vida civil e não para a carreira militar. Para quem quer seguir carreira nas Forças Armadas existem as escolas militares, modelo de educação para um propósito específico que funciona muito bem, sem interferência na vida civil.
Dizem as professoras: “o espaço escolar é palco da maior parte das relações sociais do estudante. Por este motivo, deve-se considerar a escola como local privilegiado para investir na Educação em Valores. Dentre os vários modelos educacionais, existem as Escolas Cívico-Militares. Sabe-se que nos últimos anos houve um aumento significativo de escolas com esse caráter. Essas instituições são definidas por uma gestão rígida, pautada em um conjunto de regras rigoroso e imposto com punições, para o caso de se infringir tais regras, e um severo controle disciplinar.
Por isso, existe uma grande preocupação com a qualidade da educação em valores nesses ambientes. Pesquisadores, argumentam Grizotes e Frick, defendem a ideia de que “valores impostos por uma autoridade são aceitos por temor enquanto perdurar o controle desta autoridade”, explicitando que práticas disciplinadoras autoritárias não contribuem para o desenvolvimento da moralidade, uma vez que a coação não dá espaço para o desenvolvimento de autonomia moral.
Instrumento de apelo popular junto ao eleitorado conservador, seduzido pelo mito da superioridade moral dos militares e que vê a militarização como resposta inclusive à falta de segurança, as escolas cívico-militares são objeto de desejo e ação da propaganda da extrema direita. A militarização da vida civil é usada pelos bolsonaristas, além da religião, como arma no combate ideológico contra a esquerda, que por sua vez ainda patina na falta de uma discussão competente sobre esta temática. Sem contraponto, sem contrapalavra, o mito resiste como verdade.























